sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Milton, John (1608-1674)

Poeta e político inglês. Célebre pelo poema Paradise Lost de 1667. Politicamente é um monarcómaco, próximo de Buchanan. Defende um republicanismo aristocrático, considerando que o poder deve caber aos melhores. Se começa por apoiar o partido defensor da supremacia do parlamento, passa em seguida para os chamados independentes, acabando como apoiante de Cromwell. Sustenta os regicidas que levaram à morte de Carlos I, em 1648, teorizando o tiranicídio. Em 1650 já faz um ataque à monarquia, jutificando a república, considerando a hereditariedade como contrária às leis naturais. Não deixa, no entanto, de recear a democracia representativa. Em 1660 propõe a instituição de um senado perpétuo.


Obras do autor:

·Reformation in England, 1641.

·Areopagitica. A Speech for the Liberty of Unlicensed Printing, 1644. Título inspirado em Isócrates. Assume a forma de um discurso dirigido ao parlamento.

·The Tenure of Kings and Magistrates, 1648-1694.

·Eiconoclastes, 1649.

·Defensio pro populo anglicano, 1650-1651. Na primeira defesa, resposta a um folheto do professor de Leyden Salomonius que em 1649 publicara Defensio Regia pro Carolo I. Na segunda, elogia Cromwell.

·Defensio Secund, 1654.

·Ready and Easy Way to Establish a Free Community, 1660.

·De Doctrina Christiana, 1823.

Retirado de Respublica, JAM

"Representante do classicismo inglês e autor do célebre livro O Paraíso Perdido, um dos mais importantes poemas épicos da literatura Universal. Foi politico, dramaturgo e estudioso de Religião. Apoiou Oliver Cromwell durante o período republicano inglês. Porém foi preso e ficou cego. Na prisão, dita a sua obra prima, "O Paraíso Perdido", que conta a história da queda de Lúcifer, e foi publicado em 1667. Quatro anos mais tarde, lança o livro Paraíso Reconquistado, uma seqüência do primeiro poema, trata da vinda de Cristo à Terra reconquistar o que Adão teria perdido."

Foto e texto 2 retirados da Wikipédia

"O percurso tumultuoso de John Milton (1608-1674), e sobretudo o seu talento, transformaram-no numa constelação de centelhas que escurece a obra dos seus contemporâneos. A sua influência sobre a Literatura Romântica foi bastante profunda, assim como sobre a Era Vitoriana.
Enquanto estudava em Cambridge, interessou-se por teologia, filosofia, história, política, literatura e ciência na sua preparação para uma carreira poética. Crítico da educação ministrada na época, foi, sobretudo, um autodidacta. Viajou por França e Itália onde conheceu Galileu Galilei. Antes de dedicar largos anos ao serviço da causa puritana, realizou uma série de publicações, discutindo a legalidade e moralidade do divórcio, atacando a lei inglesa referente ao casamento.
O surgimento de um glaucoma, que o viria a conduzir à cegueira, forçou-o a ditar muitos dos seus trabalhos em prosa e em verso, nomeadamente a sua obra prima, Paradise Lost, em 1667, obra épica através da qual lhe foi reconhecido, com razão, mérito universal. Repleto de influências bíblicas, assim como de autores, entre os quais Homero, Virgílio, Spenser, Sidney e Shakespeare, o poema épico descreve a criação do universo, da terra, da humanidade, veicula a origem do pecado, da morte e da maldade, recria eventos no Inferno, no Céu, no Jardim do Éden, debate ideias políticas de tirania, liberdade e justiça e defende a posição teológica sobre a predestinação, livre vontade e salvação.
Logo no início de Paradise Lost, o poeta presenteia-nos com um discurso de elevada carga emocional proferido por Lúcifer, após ter afrontado Deus e ter sido expulso do paraíso, juntamente com a sua hoste de anjos caídos. Este monólogo poderoso, onde ódio, ressentimento e orgulho estão visivelmente patentes, possibilita ao leitor arrepiado recriar o aspecto e gestos do orador, tal é a veemência com que este se exprime:

« ‘Is this the region, this the soil, the clime,’
Said then the lost Archangel, ‘this the seat
That we must change for Heaven, this mournful gloom
For that celestial light? Be it so, since he
Who now is Sovran can dispose and bid
What shall be right: farthest from him is best,
Whom reason hath equalled, force hath made supreme
Above his equals. Farewell, happy fields,
Where joy for ever dwells! Hail horrors! hail,
Infernal World! And thou, profoundest Hell
Receive thy new possessor – one who brings
A mind not to be changed by place or time.
The mind is its own place, and in itself
Can make a Heaven of Hell, a Hell of Heaven (…)”
« (…) To reign is worth ambition, though in Hell.
Better to reign in hell than serve in heaven».

O discurso de Lúcifer inicia-se ao contemplar o local para onde foi banido por Deus. Aceita-o, reconhecendo-o como soturno, melancólico, deprimente, por contraposição com a luz diáfana do paraíso. Procura, orgulhosamente, aceitar o seu destino, afirmando, com rancor, ser melhor estar afastado do Omnipotente. Despede-se dos campos onde, para toda a eternidade, a alegria habita, e classifica o seu novo reino como inferno profundíssimo. Sem demonstrar qualquer laivo de arrependimento, assegura que o seu pensamento não sofrerá alteração, sendo que este consegue transformar o paraíso num inferno e vice-versa.
E remata a primeira parte do seu discurso com uma frase emblemática nesta obra que se aplica(rá) à humanidade em todos os lugares e todos os tempos: «reinar é uma ambição válida, apesar de ser no inferno. É melhor reinar no inferno, do que servir no céu»."

Publicado por Ana Márcia Pires, no Publicista, em 20 de Agosto de 2006

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Mills, C. Wright (1915-1962)

Professor da Columbia University desde 1946. Baseando-se no marxismo, cria uma escola sociológica crítica contra o excessivo quantitativismo do behaviorismo norte-americano. Parte do dualismo power elite e sociedade de massa, denunciando um poder invisível fundado no arbitrário. Considera toda a política é uma luta pelo poder; a forma básica do poder é a violência. Neste sentido, mistura o marxismo com algumas perspectivas de Max Weber. Teoriza a sociedade de massa, com a crescente especialização de funções e o colapso do pluralismo, onde a própria cultura é alvo de uma manipulação pela elite. Salienta também que a educação de massa produz aquilo que qualificou como analfabetismo educado, quando a educação perde a sua função crítica e é domesticada pelas exigências da economia. Entende o poder como um jogo de soma zero, implicando uma estrutura dicotómica, onde aquilo que têm os que exercem o poder é aquilo que falta aos que não detêm o poder. Deste modo, considera que a política é sobretudo uma luta pelo poder que assenta, se necessário, na violência. Observa que "dominar a teoria e o método equivale a tornar‑se um pensador consciente, um homem que trabalha sabendo quais são os pressupostos e as implicações do que faz. Ser dominado pela teoria e pelo método equivale a nunca poder começar o trabalho".


Obras do autor:

The New Men of Power. America’s Labor Leaders, Nova York, Harcourt, Brace & Co., 1948.

White Collar. The American Middle Classes, (1950), Nova Iorque, Oxford University Press, 1951[trad. fr. L’Élite au Pouvoir, Paris, Éditions Maspero, 1969; trad. port. Poder e Política, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1962].

The Power Elite, Nova York, Oxford University Press, 1956) (cfr. trad. port. Poder e Política, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1962; trad. fr. L’Imagination Sociologique, Paris, Éditions Maspero, 1967).

The Sociological Imagination, (1959) (cfr. trad. port. A Imaginação Sociológica, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1975).

The Causes of World War Three, Londres, Secker & Warburg, 1959.


The Marxists, Nova York, Laurel Books, 1962.


Power, Politics and People, Oxford, Oxford University Press, 1963.


Retirado de Respublica, JAM

Foto picada de WrightMills.Org

Mill, John Stuart (1806-1873)

Filho de James Mill. Nasce em Londres. Educado desde tenra idade, chega a ter Bentham como professor. Estuda direito e filosofia. Visita França em 1821. Funcionário da Companhia das Índias Orientais de 1823 a 1858. Deputado de 1866 a 1868 por Westminster. Tenta conciliar o utilitarismo com o positivismo. Começa, como o pai, como um estrito discípulo do utilitarismo de Bentham. Alarga em 1826, as influências, primeiro a Turgot e, a partir de 1841, a Comte. A ele se deve o método do empirismo como fonte do conhecimento. Influencia Decisivamente o pensamento liberal. Nos seus últimos escritos mostra certa simpatia pelas teorias socialistas.

Revisão do utilitarismo

Vai proceder a uma revisão das teses utilitaristas, acrescentando um novo critério à quantidade dos prazeres: a qualidade dos prazer. Um homem de qualidades superiores tem de procurar prazeres superior. Acrescenta que a felicidade que os utilitaristas procuram para critério da moralidade da conduta não é apenas a felicidade pessoal do agente, mas a de todos os interessados, dadno como exemplo a máxima de Cristo do ama o teu próximo como a ti mesmo.

vai conciliar positivismo e utilitarismo

apelava para não "nos limitarmos a olhar a superfície das instituições políticas", onde "nem sempre nos aparece a força preponderante".

"O governo é, aomesmo tempo, uma grande influência que age sobre a mente humana e um conjunto de arranjos para a realização dos negócios públicos"

"A espécie humana ganha mais em deixar cada homem viver como lhe apetece; sem o obrigar a viver como os outros querem"

Defesa da participação política

A participação política, onde inclui a própria defesa do sufrágio feminisno, constitui uma maneira de fazer sair o indivíduo se si mesmo e do círculo dos seus intereses privados para o pôr em relação activa com os outros.

Contra o despotismo da sociedade

Considera que o utilitarismo de Bentham, ao defender a maior felicidade para o maior número, acaba por privilegiar o social e o democrático, com prejuízo do individual e do liberal, levando ao "despotismo da sociedade sobre o individuo". Neste sentido, vai procurar os princípios fundamentais dos fundadores do liberalismo, como os da tolerância, defendido por Locke, salientando que a liberdade é procurar o nosso próprio bem à nossa própria maneira, mas de tal forma que não tentemos privar os outros da liberdade deles ou entravar os respectivos esforços para a obter.

Educação moral da sociedade

Contra o utilitarismo considera que "em política a escolha das instituições políticas é mais uma questão de moral e de educação do que uma questão de interesses materiais". Para ele "não há razão para que todas as experiências humanas sejam construídas sobre o mesmo modelo ou sobre um pequeno número de modelos. Se uma pessoa possui qualquer razoável quantidade de senso comum e de experiëncia, a sua própria maneira de organizar a respectiva existência é a melhor, não porque seja a melhor em si mesma, mas porque é a sua". Neste sentido, em lugar do intervencionismo do Estado, considera preferível uma educação moral da sociedade que leve os homens a associar‑se e a entreajudar‑se. Há assim um valor educativo da democracia, entendido como um meio de se cultivar o espírito público e a inteligência política.

As elites

Procura conciliar o princípio de governo do povo com a ideia de autonomia das elites, nomeadamente a possibilidade dos mais sábios poderem ser chamados ao governo, esses dois grandes elementos de que depende um bom governo e que visa combinar de forma mais ampla possível, as vantagens que derivam do juízo independente de um pequeno número particularmente instruído, com o grau mais elevado de segurança para esse objectivo que consiste em tornar esse pequeno número responsável perante todos.

Defesa das minorias e da diferença

Como Tocqueville, teme o despotismo da maioria, considerando necessário o reforço dos direitos das minorias e até a valorização do excêntrico. Importa defender a diferença para se evitar a tendência para a uniformidade e a mediocridade. Porque a espécie humana não é infalível, torna-se, assim, indesejável a unidade da opinião. Só com a diferença e o próprio confronto das opiniões é que se consegue o progresso.

Contra a uniformidade

Salienta que não há nenhuma razão para que todas as experiências humanas sejam construídas segundo o mesmo modelo ou sobre um pequeno número de modelos. Se uma pessoa possuir uma qualquer quantidade razoável de senso comum e de experiência, a maneira dela organizar a respectiva existência é a melhor, não porque seja a melhor em si mesma, mas porque é a sua.

O método da verificabilidade

Antecipando Karl Popper, Stuart Mill considera que "há a maior diferença entre presumir uma opinião como verdadeira porque, tendo todas as oportunidades de ser contestada, não foi refutada, e a de afirmar a sua verdade a fim de não permitir a sua refutação". Assim salienta a necessidade da "maior disseminação possível do poder compatível com a sua eficácia; mas a maior centralização possível da informação e a difusão desta a partir do centro".

Com o mesmo autor, em Principles of political economy, de 1848, vai atingir‑se o apogeu da chamada Escola Clássica da economia, interseccionando‑se, no plano meramente económico, com o utilitarismo de Bentham e o positivismo de Comte.

Com ele se sistematizam um conjunto de leis que vão marcar o liberalismo:a lei do interesse pessoal ou princípio hedonístico (cada individuo procura o bem e a riqueza e evita o mal e a miséria), a lei da concorrência, a lei da população, a lei do salário, a lei da renda e a lei da troca internacional (o país mais pobre e menos industrializado beneficia sempre com a liberdade do comércio).

Mill, no entanto, se é inteiramente liberal quanto à produção, defendendo o liberalismo concorrencial, considera que a justiça social, isto é a acção do Estado, pode intervir na distribuição :"a sociedade pode submeter a distribuição da riqueza às regras que lhe parecerem melhores".

O socialismo de Mill

Alguns falam mesmo num socialismo de Mill, particularmente visível nas suas propostas de reforma do direito das sucessões e da socialização da renda fundiária, fundando para o efeito uma Land tenure reform Association, em 1870, onde defendeu que "o problema social do futuro consiste em conciliar a maior liberdade de acção do indivíduo com o direito de todos sobre a propriedade das matérias primas que oferece o globo, e com uma participação de todos nos proveitos do trabalho comum".

"O único fim em que é legítimo que a humanidade, individual ou colectivamente, interfira com a liberdade de acção de outrem, é auto‑defesa... O poder só é legitimamente exercido sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra a sua vontade, quando estiver em causa o bem‑estar dos outros"

apelava para não "nos limitarmos a olhar a superfície das instituições políticas", onde "nem sempre nos aparece a força preponderante".

A ideia de nacionalidade

O utilitarismo positivista e demoliberal de John Stuart Mill (1806-1873) em Considerations on Representative Government, de 1860, considera que há nacionalidade onde se encontram homens unidos por simpatias comuns que não existem entre eles e outros homens, simpatias que os levam a agir de acordo, de muito melhor vontade do que o fariam com outros, a desejar que esse governo seja exercido por eles próprios ou por uma porção entre eles, pelo que considera ser uma condição necessária das instituições livres está na circunstância das fronteiras do governo coincidirem no seu conjunto com as fronteiras da nação.

Analisando as causas do aparecimento desse sentimento, salienta que o mesmo pode ter sido engendrado por diversas causas: é por vezes o efeito da identidade de raça e de origem; muitas vezes a comunidade de língua e a comunidade de religião contribuem para o fazer nascer; os limites geográficos, igualmente. Mas a causa mais poderosa de todas é a identidade de antecedentes políticos, a posse de uma história nacional, e, por conseguinte, a comunidade de recordação, o orgulho e humilhação, o prazer e o pesar colectivos ligam‑se aos mesmos incidentes do passado. Contudo, nenhuma destas circunstâncias é indispensável ou absolutamente suficiente por si só.

Obras do autor:

Essays on Unsettled Questions in Political Economy, 1831.

System of Logic, 1843.

Principles of Political Economy, with some of their Aplication to Social Philosophy, 1846. Cfr. trad. port. Princípios de Economia Política, com Algumas das suas Aplicações à Filosofia Social, São Paulo, Abril Cultural, 1983.

Essay on Liberty, 2 vols., 1859. Cfr. trad. port. Da Liberdade, São Paulo, Instituição Brasileira de Difusão Cultural, 1964; ver tb. Trad. port. Parcial Da Liberdade de Expressão e de Pensamento, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1969.

Thoughts on Parliamentary Reform, 1859.

Considerations on Representative Government, 1860. Cfr. trad. port. O Governo Representativo, Lisboa, Livraria Arcádia, 1967.

Utilitarianism, 1861.

August Comte and the Positivism, 1865.

The Subjection of Women, 1869. Com Harriet Taylor.

Autobiography, 1873.


Bibliografia sobre o autor:

Himmelfarb, Gertrude, On Liberty and Liberalism. The Case of John Stuart Mill, Nova York, Alfred A. Knopf, 1974.

Negro, Dalmacio, Liberalismo y Socialismo en la Encrucijada Intelectual de Stuart Mill, 1975.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da Wikipédia

Militares e política

S. Finer em The Man on Horseback, de 1962, relaciona os processos de intervenção militar com os tipos de cultura política. Numa cultura política madura, onde a legitimidade fundamental é inalcançável pelos militares, estes apenas têm intervenção política pela influência. Numa cultura política desenvolvida, onde a legitimidade é importante e resistente aos militares, estes apenas podem fazer chantagem. Numa cultura política baixa, onde a legitimidade, apesar de ter alguma importância, é apenas fluída, o nível característico da intervenção militar visa a substituição do governo de civis por um governo militar. Finalmente, na cultura política mínima, onde a legitimidade não tem importância, a intervenção militar visa substituir um regime civil por um regime militar.

Retirado de Respublica, JAM

Criar Valor

Mais uma lição de Economia Social,

Nesta escola que é o Jornal de Negócios

por João Borges de Assunção


"No mundo das empresas, a criação de valor é vista como essencial à sobrevivência. O valor criado é a diferença entre o valor do que é produzido e o valor dos recursos que são consumidos, tudo numa óptica de longo prazo.

Porém, a criação de valor é difícil de medir ou aferir. A contabilidade empresarial tem muita dificuldade em medir o valor criado. Na nossa economia, em que as empresas têm liberdade para entrar e sair dos mercados, os lucros são uma medida, imperfeita, imprecisa e de curto prazo, do valor criado para os accionistas de uma empresa no longo prazo.

Acresce que convém saber para quem se está a criar valor: para os accionistas, para os consumidores, para a sociedade ou para os gestores. Cada uma destas entidades vê de forma diferente o valor criado. Mas de uma forma ou doutra só vão sobrevivendo as empresas que criam valor suficiente que justifique os recursos que consomem. A sobrevivência e perenidade de uma empresa são um sinal de que tem feito coisas bem feitas através do tempo. Ou isso ou tem tido sorte, o que também é muito útil nos meios empresariais.

Convém ainda saber como é criado o valor. O que é que cada empresa faz que a torna útil aos outros? Cada empresa faz coisas diferentes e, dessa forma, contribui positivamente para a sociedade. Essa fórmula de criação de valor é muitas vezes difícil de perceber para as entidades externas, e mesmo para muitas das pessoas que constituem a organização.

A criação de valor não pode ser dissociada do conhecimento, da produtividade e da inovação. A evolução tecnológica vai modificando rapidamente a forma como cada empresa cria valor. Para a maior parte das empresas ficar parado significa criar cada vez menos valor. A partir de certa altura as empresas podem mesmo começar a destruir valor, isto é, a consumir mais recursos do que o valor dos bens e serviços que produzem. Nessa altura o normal é que as empresas saiam do mercado.

Uma melhor alternativa a sair do mercado é ir sempre melhorando a forma como se cria valor. Isso exige que a empresa, em particular a sua liderança de topo, tenha uma visão de futuro e uma estratégia para executar essa visão. Nesta perspectiva, o aproveitamento de regras especiais ou tratamento privilegiado podem dar lucro a uma empresa, mas dificilmente criam valor para a sociedade. É por isso que as alterações fiscais em benefício de uma determinada indústria, região ou classe profissional dificilmente pode criar valor. Quanto mais simples, uniformes e transparentes forem as regras vigentes numa sociedade, mais fácil é para as empresas focarem-se na criação de valor para a sociedade e não na forma como podem dobrar as regras a seu favor.

É a gestão de topo que deve assumir a responsabilidade se os objectivos organizacionais não forem atingidos. Passar a culpa para os colaboradores é indício de incompetência. Quando o líder de uma empresa já não sabe o que fazer para criar valor deve dar lugar a outro. É por isso que hoje a rotação de líderes empresariais é tão elevada. Os accionistas reconhecem rapidamente quando a criatividade e entusiasmo de um líder se esfumou.

Quando olhamos para o universo empresarial português temos de reconhecer que a estabilidade excessiva, quer nas empresas quer nas suas lideranças, sugere que há muitas oportunidades de mudar para melhor a liderança e a estratégia das empresas.

Também o Estado devia tentar perceber como cria valor para os cidadãos. Porém, ao contrário das empresas, em que o lucro é uma medida razoável da criação de valor, o Estado não tem nenhuma medida sintética do valor criado. Certamente que a diferença entre impostos cobrados e despesas efectuadas não reflecte o valor criado pelo Estado. Seria muito útil ao país que alguém percebesse o valor criado pelas despesas do Estado. Infelizmente, muitas despesas são assumidas sem qualquer preocupação com a criação de valor. Esta sim seria uma grande reforma. Passar a justificar a acção do Estado com uma resposta simples à seguinte pergunta: como é que esta medida cria valor para a sociedade portuguesa?

A preocupação com o valor não é uma questão de “economicismo”. É acima de tudo uma visão do mundo que centra a atenção dos líderes no essencial e importante em detrimento do mediático ou acessório."

domingo, 21 de outubro de 2007

Militante

O que participa activamente, de forma exigente, na vida de uma organização política ou sindical, aceitando os objectivos e a ideologia da mesma.

Retirado de Respublica, JAM

Milieu technique

Segundo Jacques Ellul, deixou de haver simples técnicas, entendidas como máquinas, como meios ou instrumentos que o homem utiliza para se relacionar com o ambiente. As técnicas passaram à técnica, ao milieu technique. A técnica transformou-se no próprio suporte da comunicação e o homem deixou de ter com ela uma relação mediata, passando a ter uma relação imediata, de tal maneira que a própria consciência pessoal passou a ser um reflexo do próprio meio técnico.

Retirado de Respublica, JAM

Milícia

Força armada de cidadãos-soldados, paralela às forças armadas regulares, marcada pelo recrutamento voluntário e visando defender uma determinada orientação ideológica. Em Portugal, com o liberalismo estabeleceu-se uma Guarda Nacional. O salazarismo instituiu a Legião Portuguesa

Retirado de Respublica, JAM

Miliband, Ralph

Um dos teóricos do neo-marxismo anglo-saxónico.


· The State in Capitalist Society, Nova York, Basic Books, 1969 [trad. port. O Estado na Sociedade Capitalista, Lisboa, Editorial Presença, 1977].

· Marxism and Politics, Oxford, Oxford University Press, 1978.

· Divided Societies. Class Struggle in Contemporary Capitalism, Oxford, Oxford University Press, 1990.

Retirado de Respublica, JAM


«Depois da glasnost, da perestroika, da queda do muro de Berlim, das profundas mudanças na economia chinesa, o socialismo tem algum futuro? Ou tem algo a dizer sobre o presente? Ou é apenas uma ideologia ultrapassada, mero fruto da hoje tão distante Revolução Industrial? Socialismo e ceticismo oferece respostas instigantes para estas e muitas outras questões congêneres, a partir de uma profunda análise da ampla gama de aspectos do capitalismo - sistema que tem como principal objetivo o lucro, e que por isso, "apesar de tudo o que se diga em contrário, não é compatível com boas condições de vida para todos."

A decorrência da análise praticada por Ralph Miliband percorre toda a obra: o socialismo é a única opção econômica, política e social capaz de resgatar uma dignidade de vida que, para grandes contingentes da atual população mundial, é uma miragem, um sonho ou uma realidade inatingível (não merecendo por isso sequer ser pensada). As assim chamadas e muitas vezes decantadas democracias ocidentais são tratadas aqui como meras "oligarquias temperadas por instituições democráticas" - sistemas de governo ainda bastante distantes dos verdadeiros ideais democráticos de participação popular. E as relações entre governo e grandes empresas privadas são abordadas em seus aspectos subjacentes e fundamentais, principalmente como elementos socialmente produzidos para garantir o enriquecimento de uma minoria egoísta e predadora. Esta obra também apresenta e discute, com a necessária lucidez e imparcialidade, os problemas antigos e atuais dos regimes socialistas, não poupando as merecidas críticas a que muitos deles estão sujeitos, por terem gerado processos impossíveis de serem vistos como democráticos: surgimento de uma classe burocrática privilegiada, violação de direitos humanos, centralização de poder, policiamento político, indiferença política da classe trabalhadora.»

Retirado de Editora UNESP

Foto 1 picada da
Press Books

Foto 2 picada de schoolnet

Milenarismos

O conceito de milénio no Apocalipse de S. João: a crença de que Cristo voltará para estabelecer um reino de mil anos antes do Juízo Final. De Joaquim Fiora ao gnosticismo contemporâneo. O fim do mundo, o fim da história e o fim que vem depois do fim. O Quinto Império.

Ver Norman Cohn, The Pursuit of Millenium.

Retirado de Respublica, JAM

"O milenarismo (palavra que advém do latim millenium) designa a doutrina religiosa, retirada da Bíblia (Apocalipse 20, v. 1 a 10), que anuncia o regresso de Jesus Cristo para constituir um reinado temporário com duração de mil anos, vindo após isso o reinado eterno.

(...) A palavra apocalipse (termo primeiramente usado por F. Lücke (1832) significa, em grego, "Revelação". Um "apocalipse", na terminologia do judaísmo e do cristianismo, é a revelação divina de coisas que até então permaneciam secretas a um profeta escolhido por Deus. Por extensão, passou-se a designar de "apocalipse" aos relatos escritos dessas revelações.
Para os cristãos, o livro possuiria a pré-visão dos últimos acontecimentos antes, durante e após o retorno do Messias cristão. Alguns
Protestantes e Católicos mencionam que os acontecimentos previstos no livro já teriam começado. (...)"

Texto 2 e imagem retirados da Wikipédia

Milanês

Antiga república transformada em ducado em 1277, na titularidade dos Visconti até 1447, quando depois de uma efémera república, se regressa ao governo aristocrático, passando o ducado a caber aos Sforza. Entre 1515 e 1521, o ducado esteve na dependência de Francisco I de França. O ducado foi anexado por Carlos V aos Habsburgos em 1535, após a morte do último Duque Sforza, e esteve na dependência de Espanha até 1713, passando, a partir de então, para a Áustria; entre 1797 e 1814 esteve integrado no Reino de Itália de Napoleão; voltou ao domínio austríaco até 1859

Retirado de Respublica, JAM


"Milão (em italiano Milano, em latim Mediolanum e em milanês Milan) é uma comuna italiana, capital da região da Lombardia, província de Milão, com cerca de 1.308.735 habitantes.
De origem céltica, foi conquistada pelos romanos em 222 a.C.. Tinha a designação de Mediolanum e foi a capital do império do ocidente entre 305 e 402. O Édito de Milão, de Constantino, em 313 assegurou a liberdade religiosa no império. As invasões hunas, góticas e lombardas nos séculos V e VI arruinaram a cidade. Comuna independente no século XII e XIII, tornou-se a capital do ducado de Milão em 1395 sob domínio da família Sforza. Passou para domínio espanhol em 1540 e austríaco em 1713. Napoleão tornou-a capital da República Cisalpina em 1797 e do Reino de Itália de 1805 a 1814. Voltou ao domínio austríaco de 1815 a 1859, quando se uniu ao Reino da Sardenha."

Imagens e texto 2 retiradops da Wikipedia

Mil Noventos e oitenta e nove

No ano de 1989 os europeus espontaneamente derrubaram, sem ser pela força das armas, a chamada cortina de ferro que dividia uma casa comum que ia do Atlântico aos Urales. Foi então que a Europa se vestiu de esperança e teve a ilusão de voltar a ser uma casa comum pondo fim àquela guerra civil ideológica que a dilacerava:


foto picada de Cortina di Ferro

- Vaclav Havel, o intelectual checo que fora um dos principais animadores do movimento dissidente Carta 77, se era preso em 16 de Janeiro de 1989, dez meses depois, já assumia a presideência da então República Checoslovaca, tendo ao seu lado, como Presidente do Parlamento, Alexander Dubcek, o líder da malograda primavera de Praga.

foto picada de OTAN


- Também na Polónia, depois de dez anos de luta, eis que, em Janeiro de 1989, era legalizado o moviemnto Solidariedade que, depois de vencer as eleições de Junho, já assumia a presidência do Governo, em 24 de Agosto, com o intelectual católico Thadeus Mazowiecki, adepto da política antipolítica e de um regresso aos valores fundamentais.



foto picada de demokrata


- Na Roménia, por seu lado, os acontecimentos precipitavam-se no mês de Dezembro, onde, depois dos acontecimentos de Timisoara, no dia 16, eis que no dia 25, era derrubado, de forma fulminante, o conducator Nicolai Ceausescu, com requintes macabros.


foto picada da News BBC

- Já na Alemanha, depois da fuga de milhares de cidadãos da RDA para a RFA, através daHungria, em Setembro, eis que no mês seguinte se davam mudanças nas cúpulas de Berlim Leste (o recém falecido Honecker era substituído por Egon Krenz) e, no dia 9 de Novembro, já caía o muro da vergonha.



foto picada de Europa


- Em África foi também em 1989 que assumiu a presidência da República da África do Sul, Frederik De Klerk (15 de Agosto) e que a SWAPO ganhava as aleições na Namíbia (11 de Novembro).


foto picada de nepad



Também na América do Sul sopraram novos ventos:


- No Paraguai era derubado o ditador mais antigo em exercício, Alfredo Stroessner.


foto picada de CTV.es

- No Chile iniciava-se a era pós-Pinochet com a eleição do democrata-cristão Patrí cio Alwin (em 14 de Dezembro).

foto picada de elperiodico


- No Brasil, Collor de Melo era eleito, em 17 de Dezembro, nas primeiras directas desde 1960,



foto picada de webrebate

enquanto se dava, três dias depois, a invasão do Panamá por tropas norte-americanas.


foto picada de tvcultura



Por sua vez, na Ásia:

- Para além da retirada do exército do Vietname do Cambodja (29 de Setembro), eis quetambém sucedia o episódio de Tian an men, entre 22 de Abril e 4 de Junho, com a ocupação
da Praça da Paz Celestia por estudantes, numa manifestão que o poder de Pequim, sob a liderança de Deng Xiaoping, vai considerar como contrarevolucionária, com as violentas consequências da aplicação da lei marciual, decretada em 19 de Maio, quatro dias depois de Mikhail Gorbatchov ter visitado Pequim.

foto picada de lapasserelle


Las but not least, eis que em 3 de Dezembro de 1989, ocorria a cimeira de Malta, entre Gorbatchov e Bush, onde se concluía o ciclo iniciado em Yalta, em 1945. Isto é, ruía a velha ordem mundial, estabelecida pelo equilíbrio entre duas superpotências. Mas, se o mundo já não era o que tinha sido e não podia voltar a ser o que se superara, todos ficavam sem saber o que viria a ser. É que, como costuma dizer o Professor Adriano Moreira, da nova Ordem apenas sabemos que acabou a antiga.

foto picada da BBC

Retirado de Respublica, JAM

Miguelismo. Facções 1828-1834

Em 3 de Maio de 1828, depois do abandono do conde de Vila Real, o governo miguelista passou a ser um ajuntamento das duas facções.

Tradicionalistas tories

Uma, adepta do tradicionalismo consensualista e favorável às ligações com a Inglaterra, onde à frente de um governo tory estava o próprio Wellington, era representada por Cadaval, Barbosa de Magalhães e pelo Visconde de Santarém. Diga-se, de passagem, que a partir da facção moderada do miguelismo era possível o lançamento de pontes com a linha conservadora dos cartistas, nomeadamente através de Palmela, isto é, havia mais proximidades entre certas parcelas daquilo que hão-se as barricadas da guerra civil, do que, dentro das famílias de cada uma delas.

Apostólicos ou rainhistas

Outra, a facção apostólica ou rainhista, liderada por Basto, ex-intendente da polícia, era adepta da linha dura. Aliás, Basto chegou mesmo a prender o médico pessoal de D. Miguel.

Os erros de D. Miguel

D. Miguel comete, a partir de então, dois erros básicos. Primeiro, em vez de assumir um conceito suprapartidário de autoridade régia, deixa ser transformado em mero chefe de uma facção. Em segundo lugar, despreza os conselhos das potências que o haviam apoiado, principalmente quando não cede às pressões britânicas, nomeadamente aos conselhos de Lamb., 137, 967

O terrorismo de Estado.

Logo em 14 de Julho de 1828 era criado um tribunal de excepção para julgamento dos revoltosos do Porto, a alçada. Em 6 de Agosto, novo tribunal de excepção para a revolta da Madeira. A decisão da alçada do Porto foi tomada em 9 de Abril e publicitada em 4 de Maio. As horrendas execuções de doze condenados ocorreram no dia 7 de Maio, com requintes de malvadez, com os frades loios e oratorianos, mais os seus convidados a regalaram-se com doces e vinhos finos. O miguelismos afogava-se em sangue e os governos europeus vão protestando, desde a Inglaterra à Áustria, passando pela França de Carlos X, então governada pelo conservador Polignac. Em 14 de Julho as tropas miguelistas do General Póvoas entram no Porto e a partir de então estende-se a todo o continente o governo miguelista. Na Terceira continuam a governar os liberais, dirigidos pelo Conde de Vila Flor. Da mesma forma na Madeira, com o General José Lúcio Travassos Valdez. Em 4 e 18 de Agosto são instituídos os chamados decretos do Terror (Conselho Militar, confisco de bens dos emigrados, devassas, crimes de lesa-majestade). Segundo Oliveira Martins o panorama da repressão miguelista entre 1828 era o seguinte: -nas prisões do Reino 26 270; -deportados para África 1 600; -execuções 37; -julgamentos por contumácia 5000; -emigrados 13 700. No Manifesto de Guerreiro e Palmela de 1829 fala-se em 50 000 pessoas pronunciadas culpadas. Cerca de 15% da população do reino, segundo Vítor Sá. Para Henriques Seco foram mortas, entre 1828 e 1834, 139 pessoas (11 estudantes, 71 militares, 1 padre, 12 responsáveis pela revolta do norte de Maio-Junho de 1828 e 19 acusados de revolta ou incitamento à revolta.


Retirado de Respublica, JAM

Miguel I (1802-1866)

Nasce em 26 de Maio de 1802. Líder da vilafrancada de 1823 e da abrilada de 1824. É obrigado a seguir para o exílio. Jura a Carta em Viena em 4 de Outubro de 1826. Celebra esponsais com D. Maria da Glória em 29 de Outubro de 1826. Nomeado lugar-tenente de D. Pedro em 3 de Julho de 1827. Deixa Viena em 6 de Dezembro. Chega a Paris em 19 de Dezembro. A Londres em 30 de Dezembro. Desembarca em Lisboa em 22 de Fevereiro de 1828. Nomeia novo governo em 26 de Fevereiro. Dissolve a Câmara dos Deputados em 13 de Março de 1828.

O rei

Aclamado rei pelo Senado de Lisboa em 25 de Abri e jurado como tal pelos Três Estados, reunidos desde 23 de Junho, em 11 de Julho de 1828. O seu governo, marcado por aquilo que Oliveira Martins qualifica como uma ditadura plebeia, acaba por embrenhar-se numa sangrenta guerra civil que apenas termina pela Convenção de Évora Monte em 27 de Maio de 1834.

O exílio

Parte para o exílio em Sines a 30 de Maio. Emite comunicado em Génova em 20 de Junho. Casa em 1851 com Adelaide Sofia de Loewenstein-Wertheim- Rosenberg. Do consórcio nascem D. Maria das Neves (1852-1941); D. Miguel II (1853-1927); D. Maria Teresa (1855-1944) e outros. Falece em 14 de Novembro de 1866.

A lenda

A figura de D. Miguel (1802-1866) continua a ser objecto de perspectivas contraditórias. Coelho da Rocha diz dele que todos os seus actos trazem o cunho da imprevidência e da ferocidade. Almeida Garrett qualifica-o como um abjecto tirano, um rebelde traidor manifesto. Era a análise daquele D. Miguel que na frustrada revolta da abrilada de 30 de Abril de 1824, proclamara pretender esmagar duma vez a pestilenta cáfila de pedreiros livres... ou acabar na gloriosa luta em que estamos empenhados, ou cortar pela raiz o mal que nos afronta, acabando de uma vez com a infernal raça maçónica, antes que ela acabe connosco. Mas Oliveira Martins, já com uma certa distância de historiador, e que lhe valeu uma violenta diatribe de António Sérgio, diz que ele foi o último rei que o povo amou e compreendeu, que saiu pobríssimo do seu país e pelos seus oficiais carecidos distribuiu o dinheiro que possuía em Évora Monte, enquanto Carlos Passos considera que mais valia a figura do príncipe que o sistema absolutista. Por seu lado, Cabral de Moncada considera que se por legitimidade entendermos a questão dos direitos de D. Miguel ao trono português em face das leis de sucessão do reino (leis ditas de Lamego e as Cortes de 1641), num ponto de vista estritamente legal, é indiscutível que uma tal legitimidade só pertencia ao filho mais novo de D. João VI (op. cit. p. 129). Mas a isto responde Garrett, dizendo que a legitimidade fez-se para os povos e não para os reis, considerando, por seu lado, Coelho da Rocha, e que D. Miguel procedeu a uma escandalosa transgressão do juramento, dos esponsais e dos votos feitos... em Viena à face de Deus e de toda a Europa.

A honra sem inteligência

Talvez mais esclarecedoras sejam as próprias palavras de D. Miguel no exílio: fomos ambos infelizes, eu e meu irmão. Por ele esteve a inteligência sem honra, por mim, a honra sem inteligência. Porque, como dizia Garrett, na maturidade das páginas inolvidáveis das Viagens na Minha Terra, toda a guerra civil é triste. E é difícil dizer para quem é mais triste, se para o vencedor, se para o vencido. MIGUEL, D. –Honra sem inteligência, 131, 810.


Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da Wikipédia

Miguéis, José Rodrigues (1901-1980)

Romancista português, ligado à oposição ao salazarismo. Licenciado em Direito em 1924 e em Ciências Pedagógicas por Bruxelas em 1933. Começa como militante da Liga da Mocidade Republicana, colaborando na Seara Nova. Ligado ao PCP. Funda, com Bento de Jesus Caraça a revista O Globo e colabora em O Diabo. Emigra para os Estados Unidos da América em 1935, onde vai residir até morrer.

Retirado de Respublica, JAM


Foto picada da DGLB (ver artigo)

Micropoderes

1. Segundo Michel Foucault, há uma rede de micropoderes, de poderes centrífugos, locais, familiares e regionais, com uma variedade de conflitos, dotados de articulações horizontais, mas onde também surge uma articulação vertical, uma integração institucional dos poderes múltiplos tendente para um centro político, para um poder centrípeto.

2. A sua teoria dos micropoderes, esboçada em L'Archéologie du Savoir, 1969, alcançou estruturação na obra Surveiller et Punir, de 1975. Entre esses vários micropoderes, importa salientar os chamados poderes difusos que actuam pela persuasão e pela sedução. É o caso do poder dos meios de comunicação social, dos mass media, dos suportes da difusão da comunicação, como é a imprensa, o rádio e a televisão, a quem já chamam o quarto poder. A actividade de todos estes grupos não se processa no vazio, mas antes dentro de um quadro estrutural e de acordo com certas regras do jogo. Há, com efeito, uma estrutura de rede (network structure), uma relação de relações, uma rede de micropoderes, um macrocosmos de macrocosmos sociais. Há um poder político, um campo concentrado, uma governação que trata de coordenar o processo de ajustamento entre os grupos, procurando um ponto de equilíbrio entre as tensões.

3. Neste sentido, o Estado é perspectivado, não como uma coisa, mas como um processo relacional, entre a sociedade civil, ou comunidade, e o aparelho de poder, como o mero quadro estrutural de um jogo entre forças centrífugas e centrípetas, que constituiriam uma rede de micropoderes, locais, regionais, familiares, económicos e culturais, toda uma miríade de poderes periféricos, não necessariamente hierarquizáveis como corpos intermediários, que se justaporiam, de forma complexa, pelo que a soberania, na prática, seria divisível e, sobre o mesmo espaço e as mesmas pessoas, não teria que haver o centralismo e o concentracionarismo de uma única governação. O político é uma invenção marcada por uma estratégia que globaliza várias micro-estratégias, onde há uma especial forma de poder, o poder político, a síntese emergente, integrante de vários micropoderes, onde uma multiplicidade de actores actua numa determinada unidade, em quadros estruturais, em circuitos institucionalizados.

Retirado de Respublica, JAM

Microfísica do poder

A sociologia trata dos fenómenos políticos como fenómenos sociais, preocupando-se fundamentalmente com os *micropoderes, enquanto a ciência política procura sobretudo perspectivar a rede que se estabelece entre os vários poderes. Onde a sociologia trata da microfísica dos poderes, a ciência política procura enfrentar directamente uma espécie qualitativa de poder chamada poder político, o poder político institucionalizado. Onde a sociologia trata dos grupos e das relações entre grupos, no âmbito do sistema social, a ciência política trata da comunidade no seu todo, da rede de relações onde se inserem os grupos, procurando mais o centro do que as periferias.

Retirado de Respublica, JAM

Michels, Robert (1876-1936)

Influenciado por Max Weber e por Gustave le Bon. Membro activo da ala esquerda do SPD entre 1900 e 1907. Depois de 1918 torna-se colaborador do fascismo. Considera que a democracia gera oligarquia, a lei de ferro da oligarquia, porque quem diz organização diz oligarquia. Neste sentido, considera que os revolucionários de hoje são os reaccionários de amanhã. Acaba por dar ao nascente fascismo uma ética vitalista e voluntarista, em nome da necessidade de uma elite capaz de conduzir as massas durante o combate político. Isto é, transforma uma análise científica num pressuposto ideológico. Analisando o SPD considera que todo o partido, para ganhar votos, tem de perder a virgindade política e entrar em relações de promiscuidade com os elementos políticos mais heterogéneos. Conclui que a democracia desemboca naturalmente na oligarquia dado dominar o pressuposto psicológico da vontade de poder. Porque, quanto mais massificação mais organização, em virtude do princípio da divisão de trabalho que impõe a emergência de uma classe de políticos profissionais.

Obras do autor:

Zur Soziologie des Parteiwesens in der modernen Demokratie, Leipzig, Werner Klinkhardt Verlag, 1911 [trad. ing. Political Parties. A Sociological Study of the Oligarchic Tendency of Modern Democracy, Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1958; trad. it. La Sociologia del Partito Politico [1ª ed., Turim, 1912], Bolonha, Edizioni Il Mulino, 1966; trad. fr. Les Partis Politiques. Essai sur les Tendances Oligarchiques des Démocraties, Paris, Éditions Flammarion, 1971; trad. port. Sociologia dos Partidos Políticos, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1982].

Introducción a la Sociologia Política, trad. cast., Buenos Aires, Ediciones Paidós, 1969

Bibliografia:

Linz, J. J., Michels y su Contribución a la Sociologia Política, 1966.

Morán, M. Luz, Origen Histórico y Gnoseológico de la Teoría de las Élites (dissertação de doutoramento), 1981.

Bessa, António Marques, Quem Governa? Uma Análise Histórico- Política do Tema da Elite, Lisboa, ISCSP, 1993, pp. 237 segs...

Retirado de Respublica, JAM

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Michelet, Jules (1798-1874)

Historiador francês. Um dos inspiradores do republicanismo não jacobino. O clássico defensor do Estado-Nação, da história pátria. Continua na senda da história, mestra da vida. Uma perspectiva claramente romântica. Começa como defensor do orleanismo, numa postura conservadora, sendo preceptor de um dos filhos de Luís Filipe. Professor no Collège de France, donde é expulso por se recusar a jurar Napoleão III. Passa, desde então, a viver em Itália. Na sua interpretação da revolução francesa, critica duramente o jacobinismo, defendendo a figura de Danton. Influencia o nosso Antero de Quental. Considera que a revolução fez da França uma "nova Roma", a "pátria universal" que ofereceu ao mundo o "evangelho da igualdade".

Retirado de Respublica, JAM

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