domingo, 21 de outubro de 2007

Mil Noventos e oitenta e nove

No ano de 1989 os europeus espontaneamente derrubaram, sem ser pela força das armas, a chamada cortina de ferro que dividia uma casa comum que ia do Atlântico aos Urales. Foi então que a Europa se vestiu de esperança e teve a ilusão de voltar a ser uma casa comum pondo fim àquela guerra civil ideológica que a dilacerava:


foto picada de Cortina di Ferro

- Vaclav Havel, o intelectual checo que fora um dos principais animadores do movimento dissidente Carta 77, se era preso em 16 de Janeiro de 1989, dez meses depois, já assumia a presideência da então República Checoslovaca, tendo ao seu lado, como Presidente do Parlamento, Alexander Dubcek, o líder da malograda primavera de Praga.

foto picada de OTAN


- Também na Polónia, depois de dez anos de luta, eis que, em Janeiro de 1989, era legalizado o moviemnto Solidariedade que, depois de vencer as eleições de Junho, já assumia a presidência do Governo, em 24 de Agosto, com o intelectual católico Thadeus Mazowiecki, adepto da política antipolítica e de um regresso aos valores fundamentais.



foto picada de demokrata


- Na Roménia, por seu lado, os acontecimentos precipitavam-se no mês de Dezembro, onde, depois dos acontecimentos de Timisoara, no dia 16, eis que no dia 25, era derrubado, de forma fulminante, o conducator Nicolai Ceausescu, com requintes macabros.


foto picada da News BBC

- Já na Alemanha, depois da fuga de milhares de cidadãos da RDA para a RFA, através daHungria, em Setembro, eis que no mês seguinte se davam mudanças nas cúpulas de Berlim Leste (o recém falecido Honecker era substituído por Egon Krenz) e, no dia 9 de Novembro, já caía o muro da vergonha.



foto picada de Europa


- Em África foi também em 1989 que assumiu a presidência da República da África do Sul, Frederik De Klerk (15 de Agosto) e que a SWAPO ganhava as aleições na Namíbia (11 de Novembro).


foto picada de nepad



Também na América do Sul sopraram novos ventos:


- No Paraguai era derubado o ditador mais antigo em exercício, Alfredo Stroessner.


foto picada de CTV.es

- No Chile iniciava-se a era pós-Pinochet com a eleição do democrata-cristão Patrí cio Alwin (em 14 de Dezembro).

foto picada de elperiodico


- No Brasil, Collor de Melo era eleito, em 17 de Dezembro, nas primeiras directas desde 1960,



foto picada de webrebate

enquanto se dava, três dias depois, a invasão do Panamá por tropas norte-americanas.


foto picada de tvcultura



Por sua vez, na Ásia:

- Para além da retirada do exército do Vietname do Cambodja (29 de Setembro), eis quetambém sucedia o episódio de Tian an men, entre 22 de Abril e 4 de Junho, com a ocupação
da Praça da Paz Celestia por estudantes, numa manifestão que o poder de Pequim, sob a liderança de Deng Xiaoping, vai considerar como contrarevolucionária, com as violentas consequências da aplicação da lei marciual, decretada em 19 de Maio, quatro dias depois de Mikhail Gorbatchov ter visitado Pequim.

foto picada de lapasserelle


Las but not least, eis que em 3 de Dezembro de 1989, ocorria a cimeira de Malta, entre Gorbatchov e Bush, onde se concluía o ciclo iniciado em Yalta, em 1945. Isto é, ruía a velha ordem mundial, estabelecida pelo equilíbrio entre duas superpotências. Mas, se o mundo já não era o que tinha sido e não podia voltar a ser o que se superara, todos ficavam sem saber o que viria a ser. É que, como costuma dizer o Professor Adriano Moreira, da nova Ordem apenas sabemos que acabou a antiga.

foto picada da BBC

Retirado de Respublica, JAM

Miguelismo. Facções 1828-1834

Em 3 de Maio de 1828, depois do abandono do conde de Vila Real, o governo miguelista passou a ser um ajuntamento das duas facções.

Tradicionalistas tories

Uma, adepta do tradicionalismo consensualista e favorável às ligações com a Inglaterra, onde à frente de um governo tory estava o próprio Wellington, era representada por Cadaval, Barbosa de Magalhães e pelo Visconde de Santarém. Diga-se, de passagem, que a partir da facção moderada do miguelismo era possível o lançamento de pontes com a linha conservadora dos cartistas, nomeadamente através de Palmela, isto é, havia mais proximidades entre certas parcelas daquilo que hão-se as barricadas da guerra civil, do que, dentro das famílias de cada uma delas.

Apostólicos ou rainhistas

Outra, a facção apostólica ou rainhista, liderada por Basto, ex-intendente da polícia, era adepta da linha dura. Aliás, Basto chegou mesmo a prender o médico pessoal de D. Miguel.

Os erros de D. Miguel

D. Miguel comete, a partir de então, dois erros básicos. Primeiro, em vez de assumir um conceito suprapartidário de autoridade régia, deixa ser transformado em mero chefe de uma facção. Em segundo lugar, despreza os conselhos das potências que o haviam apoiado, principalmente quando não cede às pressões britânicas, nomeadamente aos conselhos de Lamb., 137, 967

O terrorismo de Estado.

Logo em 14 de Julho de 1828 era criado um tribunal de excepção para julgamento dos revoltosos do Porto, a alçada. Em 6 de Agosto, novo tribunal de excepção para a revolta da Madeira. A decisão da alçada do Porto foi tomada em 9 de Abril e publicitada em 4 de Maio. As horrendas execuções de doze condenados ocorreram no dia 7 de Maio, com requintes de malvadez, com os frades loios e oratorianos, mais os seus convidados a regalaram-se com doces e vinhos finos. O miguelismos afogava-se em sangue e os governos europeus vão protestando, desde a Inglaterra à Áustria, passando pela França de Carlos X, então governada pelo conservador Polignac. Em 14 de Julho as tropas miguelistas do General Póvoas entram no Porto e a partir de então estende-se a todo o continente o governo miguelista. Na Terceira continuam a governar os liberais, dirigidos pelo Conde de Vila Flor. Da mesma forma na Madeira, com o General José Lúcio Travassos Valdez. Em 4 e 18 de Agosto são instituídos os chamados decretos do Terror (Conselho Militar, confisco de bens dos emigrados, devassas, crimes de lesa-majestade). Segundo Oliveira Martins o panorama da repressão miguelista entre 1828 era o seguinte: -nas prisões do Reino 26 270; -deportados para África 1 600; -execuções 37; -julgamentos por contumácia 5000; -emigrados 13 700. No Manifesto de Guerreiro e Palmela de 1829 fala-se em 50 000 pessoas pronunciadas culpadas. Cerca de 15% da população do reino, segundo Vítor Sá. Para Henriques Seco foram mortas, entre 1828 e 1834, 139 pessoas (11 estudantes, 71 militares, 1 padre, 12 responsáveis pela revolta do norte de Maio-Junho de 1828 e 19 acusados de revolta ou incitamento à revolta.


Retirado de Respublica, JAM

Miguel I (1802-1866)

Nasce em 26 de Maio de 1802. Líder da vilafrancada de 1823 e da abrilada de 1824. É obrigado a seguir para o exílio. Jura a Carta em Viena em 4 de Outubro de 1826. Celebra esponsais com D. Maria da Glória em 29 de Outubro de 1826. Nomeado lugar-tenente de D. Pedro em 3 de Julho de 1827. Deixa Viena em 6 de Dezembro. Chega a Paris em 19 de Dezembro. A Londres em 30 de Dezembro. Desembarca em Lisboa em 22 de Fevereiro de 1828. Nomeia novo governo em 26 de Fevereiro. Dissolve a Câmara dos Deputados em 13 de Março de 1828.

O rei

Aclamado rei pelo Senado de Lisboa em 25 de Abri e jurado como tal pelos Três Estados, reunidos desde 23 de Junho, em 11 de Julho de 1828. O seu governo, marcado por aquilo que Oliveira Martins qualifica como uma ditadura plebeia, acaba por embrenhar-se numa sangrenta guerra civil que apenas termina pela Convenção de Évora Monte em 27 de Maio de 1834.

O exílio

Parte para o exílio em Sines a 30 de Maio. Emite comunicado em Génova em 20 de Junho. Casa em 1851 com Adelaide Sofia de Loewenstein-Wertheim- Rosenberg. Do consórcio nascem D. Maria das Neves (1852-1941); D. Miguel II (1853-1927); D. Maria Teresa (1855-1944) e outros. Falece em 14 de Novembro de 1866.

A lenda

A figura de D. Miguel (1802-1866) continua a ser objecto de perspectivas contraditórias. Coelho da Rocha diz dele que todos os seus actos trazem o cunho da imprevidência e da ferocidade. Almeida Garrett qualifica-o como um abjecto tirano, um rebelde traidor manifesto. Era a análise daquele D. Miguel que na frustrada revolta da abrilada de 30 de Abril de 1824, proclamara pretender esmagar duma vez a pestilenta cáfila de pedreiros livres... ou acabar na gloriosa luta em que estamos empenhados, ou cortar pela raiz o mal que nos afronta, acabando de uma vez com a infernal raça maçónica, antes que ela acabe connosco. Mas Oliveira Martins, já com uma certa distância de historiador, e que lhe valeu uma violenta diatribe de António Sérgio, diz que ele foi o último rei que o povo amou e compreendeu, que saiu pobríssimo do seu país e pelos seus oficiais carecidos distribuiu o dinheiro que possuía em Évora Monte, enquanto Carlos Passos considera que mais valia a figura do príncipe que o sistema absolutista. Por seu lado, Cabral de Moncada considera que se por legitimidade entendermos a questão dos direitos de D. Miguel ao trono português em face das leis de sucessão do reino (leis ditas de Lamego e as Cortes de 1641), num ponto de vista estritamente legal, é indiscutível que uma tal legitimidade só pertencia ao filho mais novo de D. João VI (op. cit. p. 129). Mas a isto responde Garrett, dizendo que a legitimidade fez-se para os povos e não para os reis, considerando, por seu lado, Coelho da Rocha, e que D. Miguel procedeu a uma escandalosa transgressão do juramento, dos esponsais e dos votos feitos... em Viena à face de Deus e de toda a Europa.

A honra sem inteligência

Talvez mais esclarecedoras sejam as próprias palavras de D. Miguel no exílio: fomos ambos infelizes, eu e meu irmão. Por ele esteve a inteligência sem honra, por mim, a honra sem inteligência. Porque, como dizia Garrett, na maturidade das páginas inolvidáveis das Viagens na Minha Terra, toda a guerra civil é triste. E é difícil dizer para quem é mais triste, se para o vencedor, se para o vencido. MIGUEL, D. –Honra sem inteligência, 131, 810.


Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da Wikipédia

Miguéis, José Rodrigues (1901-1980)

Romancista português, ligado à oposição ao salazarismo. Licenciado em Direito em 1924 e em Ciências Pedagógicas por Bruxelas em 1933. Começa como militante da Liga da Mocidade Republicana, colaborando na Seara Nova. Ligado ao PCP. Funda, com Bento de Jesus Caraça a revista O Globo e colabora em O Diabo. Emigra para os Estados Unidos da América em 1935, onde vai residir até morrer.

Retirado de Respublica, JAM


Foto picada da DGLB (ver artigo)

Micropoderes

1. Segundo Michel Foucault, há uma rede de micropoderes, de poderes centrífugos, locais, familiares e regionais, com uma variedade de conflitos, dotados de articulações horizontais, mas onde também surge uma articulação vertical, uma integração institucional dos poderes múltiplos tendente para um centro político, para um poder centrípeto.

2. A sua teoria dos micropoderes, esboçada em L'Archéologie du Savoir, 1969, alcançou estruturação na obra Surveiller et Punir, de 1975. Entre esses vários micropoderes, importa salientar os chamados poderes difusos que actuam pela persuasão e pela sedução. É o caso do poder dos meios de comunicação social, dos mass media, dos suportes da difusão da comunicação, como é a imprensa, o rádio e a televisão, a quem já chamam o quarto poder. A actividade de todos estes grupos não se processa no vazio, mas antes dentro de um quadro estrutural e de acordo com certas regras do jogo. Há, com efeito, uma estrutura de rede (network structure), uma relação de relações, uma rede de micropoderes, um macrocosmos de macrocosmos sociais. Há um poder político, um campo concentrado, uma governação que trata de coordenar o processo de ajustamento entre os grupos, procurando um ponto de equilíbrio entre as tensões.

3. Neste sentido, o Estado é perspectivado, não como uma coisa, mas como um processo relacional, entre a sociedade civil, ou comunidade, e o aparelho de poder, como o mero quadro estrutural de um jogo entre forças centrífugas e centrípetas, que constituiriam uma rede de micropoderes, locais, regionais, familiares, económicos e culturais, toda uma miríade de poderes periféricos, não necessariamente hierarquizáveis como corpos intermediários, que se justaporiam, de forma complexa, pelo que a soberania, na prática, seria divisível e, sobre o mesmo espaço e as mesmas pessoas, não teria que haver o centralismo e o concentracionarismo de uma única governação. O político é uma invenção marcada por uma estratégia que globaliza várias micro-estratégias, onde há uma especial forma de poder, o poder político, a síntese emergente, integrante de vários micropoderes, onde uma multiplicidade de actores actua numa determinada unidade, em quadros estruturais, em circuitos institucionalizados.

Retirado de Respublica, JAM

Microfísica do poder

A sociologia trata dos fenómenos políticos como fenómenos sociais, preocupando-se fundamentalmente com os *micropoderes, enquanto a ciência política procura sobretudo perspectivar a rede que se estabelece entre os vários poderes. Onde a sociologia trata da microfísica dos poderes, a ciência política procura enfrentar directamente uma espécie qualitativa de poder chamada poder político, o poder político institucionalizado. Onde a sociologia trata dos grupos e das relações entre grupos, no âmbito do sistema social, a ciência política trata da comunidade no seu todo, da rede de relações onde se inserem os grupos, procurando mais o centro do que as periferias.

Retirado de Respublica, JAM

Michels, Robert (1876-1936)

Influenciado por Max Weber e por Gustave le Bon. Membro activo da ala esquerda do SPD entre 1900 e 1907. Depois de 1918 torna-se colaborador do fascismo. Considera que a democracia gera oligarquia, a lei de ferro da oligarquia, porque quem diz organização diz oligarquia. Neste sentido, considera que os revolucionários de hoje são os reaccionários de amanhã. Acaba por dar ao nascente fascismo uma ética vitalista e voluntarista, em nome da necessidade de uma elite capaz de conduzir as massas durante o combate político. Isto é, transforma uma análise científica num pressuposto ideológico. Analisando o SPD considera que todo o partido, para ganhar votos, tem de perder a virgindade política e entrar em relações de promiscuidade com os elementos políticos mais heterogéneos. Conclui que a democracia desemboca naturalmente na oligarquia dado dominar o pressuposto psicológico da vontade de poder. Porque, quanto mais massificação mais organização, em virtude do princípio da divisão de trabalho que impõe a emergência de uma classe de políticos profissionais.

Obras do autor:

Zur Soziologie des Parteiwesens in der modernen Demokratie, Leipzig, Werner Klinkhardt Verlag, 1911 [trad. ing. Political Parties. A Sociological Study of the Oligarchic Tendency of Modern Democracy, Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1958; trad. it. La Sociologia del Partito Politico [1ª ed., Turim, 1912], Bolonha, Edizioni Il Mulino, 1966; trad. fr. Les Partis Politiques. Essai sur les Tendances Oligarchiques des Démocraties, Paris, Éditions Flammarion, 1971; trad. port. Sociologia dos Partidos Políticos, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1982].

Introducción a la Sociologia Política, trad. cast., Buenos Aires, Ediciones Paidós, 1969

Bibliografia:

Linz, J. J., Michels y su Contribución a la Sociologia Política, 1966.

Morán, M. Luz, Origen Histórico y Gnoseológico de la Teoría de las Élites (dissertação de doutoramento), 1981.

Bessa, António Marques, Quem Governa? Uma Análise Histórico- Política do Tema da Elite, Lisboa, ISCSP, 1993, pp. 237 segs...

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da PEP

Michelet, Jules (1798-1874)

Historiador francês. Um dos inspiradores do republicanismo não jacobino. O clássico defensor do Estado-Nação, da história pátria. Continua na senda da história, mestra da vida. Uma perspectiva claramente romântica. Começa como defensor do orleanismo, numa postura conservadora, sendo preceptor de um dos filhos de Luís Filipe. Professor no Collège de France, donde é expulso por se recusar a jurar Napoleão III. Passa, desde então, a viver em Itália. Na sua interpretação da revolução francesa, critica duramente o jacobinismo, defendendo a figura de Danton. Influencia o nosso Antero de Quental. Considera que a revolução fez da França uma "nova Roma", a "pátria universal" que ofereceu ao mundo o "evangelho da igualdade".

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da Wikipédia

sábado, 20 de outubro de 2007

Mesocracia

Do grego mesos, médio. O mesmo que governo da classe média, da classse social situada entre a classe superior e a classe dos trabalhadores.


ver Classe Média.

Retirado de Respublica, JAM

Messianismo

Do hebraico meshiah, o messias). Doutrina que admite a chegada de um salvador que conduzirá o povo oprimido à respectiva liberatação. A crise de 1383‑1385 provoca a explosão do messianismo vem abalar pacientes tentativas de eliminação de heresias. Basta atentarmos nas teorias políticas expressas pelo nosso Fernão Lopes que não se coibe de considerar D. João I, o "mexias português". Trata‑se de um conjunto de ideias provindas do joaquinismo e de S. Ambrósio, mais ou menos, animadas pelo caldo herético de certo franciscanismo, com destaque para a biblia pauperum do século XII que vai levar o cronista a falar num "evangelho português" e a referir o começo da "sétima idade", com a vinda do Espírito Santo. Essa mistura explosiva que foi o franciscanismo com o messianismo, como aparece no Culto do Espírito Santo, permaneceu. Segue-se o messianismo bandarrista e, depois, o culto sebastianista. Mas messianista e gnóstico continuou a ser o positivismo, bem como o próprio socialismo, enredados no gnosticismo. Aliás, Guerra Junqueiro, conforme os relatos de Raul Brandão, chegou a profetizar a vinda de uma espécie de D. Sebastião científico, como veio a acontecer com o caldo de cultura do comunismo, enquanto sucedâneo da religião.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada de Christianismus.it

Mestres-pensadores

Com Hegel, a civilização europeia deixou de ser apenas greco-romana e judaico-cristã, passando a receber o impulso estruturante da especulação germânica, marcada por aquilo que André Glucksmann qualifica como o ciclo dos mestres-pensadores. Neste sentido, Hegel está para o pensamento contemporâneo como São Tomás de Aquino esteve para o fim da Idade Média. Segundo a caricatura que deles fez o mesmo Glucksmann: foram quase todos mestres da linguagem ao ponto de cada um tender a forjar uma linguagem própria para melhor a ter cientificamente na mão. Línguas de um domínio que se domina matematicamente a si próprio, movem‑se sempre no círculo de uma tautologia.

Retirado de Respublica, JAM

Metabolismo

Do gr. metabolis, ação de mudar, mudança de estado. Perspectiva assumida por Aristóteles sobre a dinâmica da polis. A passagem de um todo para outro todo, porque os seres nascem, crescem e morrem, onde a causa primeira de toda a mudança é uma causa interna, está situada nas suas própria parcelas. O todo, porque é composto de parcelas, tem uma causa interna, que está localizada nas suas próprias parcelas. Daí que cada todo possa transformar-se noutro todo. Num organismo vivo, a fisiologia ensina-nos que o metabolismo inclui um duplo processo de assimilação (anabolismo) e de transformação dos restos rejeitados (catabolismo).

Metabolismo político

Aristóteles

Retirado de Respublica, JAM

Metafísica do poder

Segundo Weber há uma casuística do poder, em confronto com uma metafísica do poder. A primeira corresponde ao Macht, a segunda ao Herrschaft. Na casuística do poder, há a possibilidade de alguém impor a sua vontade mesmo contra a vontade de outro. Trata-se de um poder socialmente amorfo. Mas quem dispõe de casuística pode acabar por aceder à metafísica do poder. A metafísica do poder converte uma acção comunitária amorfa numa acção racional, surgindo a relação comando/ obediência, onde há um direito ou poder de mando e um dever de obediência..

Retirado de Respublica, JAM

Metafísica social

Giorgio la Pira refere também "os problemas políticos e sociais ... apresentam‑se colocados sobre dois planos hierarquicamente distintos: um técnico e outro meta‑técnico; um político... e um meta‑político; um físico e outro meta‑físico. Existe uma técnica social e existe, anterior a ela, uma metafísica social: esta última tem como objecto, precisamente, as normas básicas que orientam a discussão e solução técnica dos problemas sociais". Porque "uma Weltanschauung está sempre subentendida em toda e qualquer concepção política integral sob toda e qualquer valoração integral da economia, do direito ou da política acha‑se necessariamente uma certa solução dos problemas de Deus, do homem, do mundo".

Retirado de Respublica, JAM


Metapolítica

Segundo Hannah Fenichel Pitkin, há em todos os autores uma metapolítica, os pontos de vista mais largos que ultrapassam a ideologia de cada um e se prendem com as concepções do mundo e da vida, com as ideias que cada um tem sobre a sociedade e a natureza do homem. Para o pensamento grego clássico, a política era inseparável da metapolítica: só passou a haver política quando se concebeu uma metapolítica, quando tratou de fazer depender-se a polis de um fim, de uma razão, de uma ideia suprapositiva. Quando a polis deixou de ser apenas ordem e tratou de subir à categoria de governação, onde o reger tende a ser caminhar para um certo fim, tende a ser pilotar, conduzir o navio a um determinado ponto futuro. Mas caminharmos para a metapolítica, não pode fazer esquecer-nos a base do processo, do biológico ao social. Começa-se na metapolítica, mas logo deve refluir-se para o intrapolítico; porque, ao mergulhar no concreto, se regressa ao normativo e ao dever ser. É por causa desta pesquisa sobre a metapolítica que a política acaba por ser gerada. Tal como os factos têm de integrar-se nas ideias, para que as ideias fecundem os factos...

Retirado de Respublica, JAM

Metapolítica e Nação

Há uma noção metapolítica de nação, desde os messiânicos aos que, em nome da Providência, fazem depender a nação da mão de Deus.

Retirado de Respublica, JAM

"Metapolítica é a ciência da relação do fundamento último da política e as funções nas quais a política deve atuar. Entende-se que o fundamento metapolítico, seja ele a liberdade, a igualdade, a religião ou a raça é mais importante do que o sistema em si e que portanto deve definir e sempre estar acima dos meios políticos específicos."

Retirado da Wikipédia

"Divulgação na mentalidade colectiva e na sociedade civil de valores e ideias (ou de "ideologemas") excluindo qualquer meio ou qualquer finalidade política, assim como a etiquetagem política, mas de acordo com uma visão de Grande Política, ou seja, na demanda de um impacto histórico.

A metapolítica situa-se fora e acima da política polítiqueira, a qual se tornou teatral e já não constitui o lugar da política. A estratégia metapolítica visa difundir uma concepção-do-mundo de modo a que os valores desta última adquiram na história a potência e o poder a longo prazo. Esta estratégia é incompatível com as ambições burguesas de obtenção do poder, "de estar" no poder a curto prazo. Polivalente, a metapolítica deve dirigir-se às instâncias de decisão, aos mediadores, aos difusores de todas as correntes de pensamento, as quais não revela necessariamente o conjunto do seu discurso. A metapolítica expressa igualmente uma sensibilidade como uma doutrina; torna-se cultural ou ideológica segundo as circunstâncias.

Horizontes alargados, flexibilidade, eficácia prática e dureza do "discurso interno" (que se distingue do discurso externo, o qual não trai absolutamente o discurso interno, mas não diz "tudo", adaptando a formulação) são os quatro pilares da estratégia metapolítica."

Retirado de Metapedia

Meteco

O estrangeiro que, em Atenas, tinha autorização de residência na polis, distinto do cidadão, ou eupátrida, e do escravo. Paga uma taxa especial e é obrigado a cumprir serviço militar, tendo o direito a protecção judicial, mas sem poder ser proprietário fundiário. Entre os metecos, há muitos comerciantes do Pireu e alguns intelectuais, como Aristóteles. Nos finais do século IV começam a receber a plena cidadania. Em 404 a. C. são acusados de ligação aos democratas, são perseguidos pela chamada Oligarquia dos Trinta.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada de homolaicus

Método

Etimologicamente, significa o caminho para. De odos, caminho, a que se juntou o prefixo meta, significando depois. Em termos gerais, o caminho que se deve seguir para alcançar a verdade num domínio científico. Metodologia, é a ciência dos métodos, equivalente à epistemologia.

Método sempre quis dizer caminho, sempre foi um meio, um instrumento para se atingir o fim da verdadeira ciência: a inteligibilidade do real. Logo, se os fins não devem ser postos ao serviço dos meios, talvez o primeiro dos vícios científicos esteja naqueles que acabam por transformá-lo numa ideologia, dando prevalência ao método sobre o objecto. Quando dizemos que no princípio de cada ciência está o método, não podemos esquecer que o logos é anterior e superior ao método, que a ontologia é superior à metodologia, que a verdade, deve, em qualquer caso, prevalecer, como assinala Gadamer. As eternas perguntas sobre o como se caminha para a verdade (know how), essa ilusão teórica do conhecer o conhecimento, podem desviar-nos do próprio objecto que pretendemos analisar e, de tanto pensarmos o pensamento, podemos acabar por nem sequer pensar. Se dermos preponderância à pergunta do como, do knowing how, insistindo nas prescrições metodológicas, podemos desviar-nos das próprias coisas, esquecendo o knowing that, não respondendo à pergunta fundamental sobre o quê. Com efeito, no nosso tempo, as ciências sociais estão cercadas por um excesso de metodologismo, onde abundam as engenharias conceituais com muitos manuais cheios de instruções sobre a descoberta da verdade, que, muitas vezes, têm levado a que se coisifique o pensamento. Ora, a aprtir do momento em que se transforma o próprio pensamento numa simples coisa, está aberta a senda para a objectivização do sujeito e para a subjectivização do objecto.

Método axiomático-dedutivo

O método típico da matemática e da geometria que a partir do cartesianismo entrou em confronto com o método aristotélico. Também dito método racionalista, marcado pelo esprit geométrique. No tocante às ciências sociais, este método tende a hipostasiar o processo analítico que vai dos efeitos para as causas e a transformar as coisas sociais e políticas numa espécie de objecto maquinal. Decompõe os todos nas suas partes componentes; procede a uma análise exaustiva de cada um dos elementos integrantes desse todo; procura as respectivas leis de funcionamento; tende a reconstruir o todo pela soma das respectivas parcelas.

Método sociológico

Segundo Émile Durkheim, são as seguintes les règles de la méthode sociologique: o reconhecimento da existência de factos sociais, como maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo e que são dotadas de um poder de coerção que se lhe impõem; a exigência de considerar os factos sociais como coisas, destacadas dos sujeitos conscientes que os representam e susceptíveis do mesmo tratamento que os factos naturais, nomeadamente no tocante às relações de causalidade; e a necessidade de afastarmos sistematicamente as pré-noções.

Metodologia política

Um quarto campo da actual ciência política tem a ver com as questões metodológicas, desde a análise terminológica dos conceitos, ao problema da própria linguagem. Se, por um lado, importa analisar os métodos qualitativos (ver, sobretudo W. Crotty, Political Science. Looking to the Future [1991]) , também não deve perder-se de vista todo o espaço dos métodos quantitativos.

A descoberta das grandes linhas metodológicas pode referenciar-se, em primeira linha, nos grandes balanços sobre o estado da arte. Assim, depois do relatório da UNESCO, La Science Politique Contemporaine. Contribution à la Recherche, à la Méthode et l’Enseignement, de 1950, há que referir os trabalhos de C. B. MacPherson [1954], William ª Robson [1955], Dwight Waldo [1956], William James MacKenzie [1967, 1970 e 1972], Marcel Prélot [1969] e Paul Ricoeur [1978]. A partir de então, surgiram vários estudos e relatórios sobre as origens, o desenvolvimento e o estado da disciplina.

Na perspectiva anglo-saxónica, refiram-se:

. Stanley H. Hoffmann [Hoffmann, Stanley H., «Tendances de la Science Politique aux États Unis», in Revue Française de Science Politique, pp. 913 segs., Paris, Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques/CERI, 1957];

. Bernard Crick [Crick, Bernard, The American Science of Politics. Its Origins and Conditions, Berkeley, University of California Press, 1959. ];

. Albert Somit e Joseph Tanehaus [Somit, Albert, Tanenhaus, Joseph, American Political Science. A Profile of a Discipline, Nova York, Atherton Press, 1964;

. Tanenhaus, Joseph, The Development of American Political Science, Boston, Allyn & Beacon, 1967. ];

. David B. Truman [1965], Karl Deutsch [1966], M. D. Irish [1968], Preston King [1975], Ada Finifter [1983 e 1993], D. M. Ricci [1984], David Easton [1985] e Gabriel Almond [1990].

Em França, são de assinalar os de Georges Lavau [1956 e 1969], Marcel Prélot [1956-1957], François-Michel Bourricaud [1958], Jean Myriat [1960], Maurice Duverger [1965], Jean Leca [1982] e Pierre Favre [1982].

No tocante a outros países, mencionam-se Norberto Bobbio [1969] e Kastendiek [1987].

Mesmo quanto a Portugal, são marcantes os contributos de Maria José Stock [1984], Manuel Braga da Cruz e Manuel de Lucena [1985], Marcelo Rebelo de Sousa [1989], Nuno Rogeiro [1993], a que se soma o nosso relatório de concurso para professor associado de 1993, publicado em 1994, com o título Sobre a Ciência Política.

Nos ensaios sobre introdução à política, podemos também perspectivar as principais opções nesse domínio. E, aqui, refiram-se Anderson, Rodde e Christo [1957], Meynaud [1959], Duverger [1964], Jean-Yves Calvez [1967], Guild e Palmer [1968], Abendroth e Lenk [1968], Jean-Pierre Lassalle [1969], Mitchell [1969], Abcarian e Masannat [1970], Haas e Kariel [1970], Althoff e Rush [1971], Raymond Polin [1971], º H. Ibele [1971], Chemillier-Gendreau e C. Courvoisier [1971], David Everson e Popard Paine [1973], Bernstein e Deyer [1979], Leon Hurwitz [1979], Debbasch e Pontier [1982], Patrick de Loubier [1983], Philippe Braud [1984], John Schrems [1986], García Cotarello e Paniagua Soto [1987], Philippe Bénéton [1987], Alan Isaak [1987], Martin Marger [1987], Harmon Zeigler [1990], Jean-Luc Chabot [1991], James Danzinger [1991], Winter e Bellows [1992], Kay Lawson [1993], Gamble, Redenius e Weber [1992, 2ª ed. ], Breslin, Hague e Harrop [1992], Jean Baudouin [1992], Ponton e Gill [1993], Leslie Lipson [1993, 9ª ed. ], Ethridge e Handelman [1994], Howlett e Laycock [1994], Vernon Van Dike [1995], Robert Heneman [1995], Kenneth Minogue [1995], Richard Cole [1995], Dominique Chagnollaud [1996].

Não faltam sequer, em português, as tentativas de Fernando Luso Soares [1975], Francisco Lucas Pires [1978], Marques Bessa e Nogueira Pinto [1978], e Vitalino Canas [1992].

A literatura sobre a metodologia na ciência política abunda, com destaque para Burdeau [1959], Duverger [1959], Grawitz [1964], Meehan [1965], Crotty [1968, 1969 e 1991], Isaak [1969], Etzioni [1970], Holt e Turner [1970], Landau [1972], Mayer [1972], Garson [1976], Giddens [1976], Smelser [1976], Feyerabend [1979], Bernstein e Deyer [1979], Ragin [1987], Jones [1995], Marsh [1995], Olson [1995] e Stoker [1995].

Metodologismo.

O exagero de teorias sobre o método, resultantes da intersecção do cientismo positivista com o hegelianismo que levam à predominância do know how sobre o know that. O método, a procura do conhecer o conhecimento, transforma-se numa ideologia, como acontece com o estruturalismo sistemista e em muitos devaneios do neo-marxismo. Dá-se assim a prevalência do método sobre o objecto e este modelo de pensamento transformou-se na medida de todas as coisas...

Métodos quantitativos

Sobre os métodos quantitativos nos domínios da ciência política, importa consultar Champney [1995]. Sobre a metodologia em geral, também neste domínio, são já clássicas as obras de Crotty [1969], Isaak [1969], Holt e Turner [1970], Landau [1972] e Mayer [1972].

Metodenstreit


O mesmo que conflito sobre o método. Polémica desencadeada a partir de 1880, quando os teóricos neokantianos consideraram que a vida humana era insusceptível de explicação causal, passando a defender-se a compreensão como o processo típico das ciências humanas, das Geisteswissenschaften, que não deveriam seguir os modelos analíticos das ciências da natureza, conformem defendiam positivistas. O positivismo lógico do Círculo de Viena voltou a defender a mesma unidade metodológica de todas as ciências.

Retirado de Respublica, JAM

Metz, Johann Baptist (n. 1928)

Alemão, bávaro. Doutor em filosofia e teologia. Professor de teologia em Münster. Um dos inspiradores da teologia da libertação. Considera que a dinâmica essencial da História é a memória do sofrimento, como consciência negativa de liberdade futura e como estimulante para agir, no horizonte desta liberdade, de modo a superar o sofrimento. Uma memória do sofrimento que força a olhar para o “theatrum mundi” não só a partir do ponto de vista dos bem-sucedidos e arrivistas mas também do ponto de vista dos vencidos e das vítimas. Defende uma nova relação entre a política e a moral, uma espécie de moralização da política, considerada o novo nome para a cultura

· A Fé em História e Sociedade. Estudos para uma teologia fundamental prática, [ed. orig. 1977] trad. port., São Paulo, Edições Paulinas, 1981.

· Antropocentrismo Cristiano, Salamanca, Ediciones Sígueme, 1972.

· Teología del Mundo, Salamanca, Ediciones Sígueme, 1970.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada do CEPP

Meyer, Theodor

Jesuíta. Defensor do direito natural cristão, autor de umas Institutiones iuris naturalis (1885‑1890). Considera que o direito é a ciência da rectidão moral de acordo com os princípios racionais. Critica o estatismo jurídico, quando referindo‑se à Staateswissenschaft da respectiva época, observa que "nos tratados recentes de direito público, prevaleceu o costume de animosamente distinguir 'Estado público' e 'sociedade' e alguns vangloriam‑se desta invenção como de um grande progresso da ciência", confundindo “Staat com Staatsgewalt (...) Ouvindo‑os direis que o Estado com os seus órgãos é uma instituição completa e materialmente distinta do corpo social, como uma couraça férrea e frígida que lhe fosse eternamente sobreposta". Observa também que "o povo tira a designação da unidade política e a nação da unidade fisiológica. Assim, um povo pode ser composto de diversas nações ou raças".

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada de fh-lueneburg

Meyerson, Émile (1859-1933)

Filósofo polaco fixado em França desde 1882. Violento crítico do positivismo. Salienta que a lei é uma construção ideal que exprime, não o que se passa na realidade, mas o que ocorreria, verificadas certas condições.

·Identité et Realité, 1907

·De l'Explications dans les Sciences, 1921.

·La Déduction Relativiste, 1925.

·Le Cheminement de la Pensée, 1931.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da IEP

Meynaud, Jean

Politólogo suíço, especialista na temática dos grupos de pressão e da tecnocracia.

·Les Groupes de Pression en France, Paris, Librairie Armand Colin, 1958.

·Introduction à la Science Politique, Paris, Librairie Armand Colin, 1959.

·La Science Politique. Fondements et Perspectives, Lausanne, edição do autor, 1960.


Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da UNIL

Meyriat, Jean

La Science Politique en France (1945-1958). Bibliographie Commentée, Paris, Presses de la Fondation Nationale des Sciences Politiques, 1960.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada de El Profesional de la Información

Mesa do Orçamento, Comer à

A expressão comer à mesa do orçamento, querendo significar uma política de favoritismo na distribuição de empregos e subsídios públicos tem especial desenvolvimento durante o regime do baronato devorista, entre 1834 e 1836, principalmente a partir da acção de Rodrigo da Fonseca como ministro do reino entre 15 de Julho e 18 de Novembro de 1835 durante o governo de Saldanha. Diz o ministro em causa, na altura, que postos todos a comer à mesma mesa depress passariam de convivas satisfeitos a amigos dedicados. Desencadeia uma política de criação de barões, como os de Moncorvo, Samodães, Bonfim, Sabrosa, Setúbal, Ruivós, Bóbeda, Leiria. Como então dizia Garrett, foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde... Gera-se assim uma política de empregadagem, logo criticada nuns versos de Brás Tisana: Uma nação de empregados/ É Portugal? Certamente: /Até D. Miguel, do trono/ De Maria... é pretendente.

Retirado de Respublica, JAM

Mesa da Consciência e Ordens (1532)

Com D. João III, em 1532, é criada a Casa da Consciência, com atribuições em matérias que dissessem respeito à consciência do rei. Mais tarde, com a incorporação na coroa das ordens militares, passa a designar-se Mesa da Consciência e Ordens. Detém, assim, uma larga esfera de acção, desde matérias do foro eclesiático à administração de bens das ordens, passando pelas capelas do padoado régio à própria tutela da Universidade - até ao século XVIII. Tem regimentos de 24 de Novembro de 1558, 20 de Junho de 1567 e 23 de Agosto de 1608. Mesa da Consciência e Ordens, criada por D. João III em 1532 e mantida pelo regimento filipino de 1608, onde se deu "o controlo do poder judiciário pela teologia e pela ética" que "se contribuía para fortalecer o poder, limitava‑o do ponto de vista ético", aquele ambiente de catedratismo inquisitorial que vai fazer murchar o impulso da resistência nacional vivificada pelas enraizadas autonomias populares.

Retirado de Respublica, JAM

Merton, Robert King (1910-2003)

Sociólogo norte-americano. Doutorado em Harvard em 1936. Professor em New Orleans (1939-1941) e na Columbia University, desde 1941, onde trabalha com Lipset e Lazarsfeld. Inspirador do estrutural-funcionalismo e da escola funcionalista de ciência política. Considera a função como as consequencias objectivas de processos sociais que contribuem para a adaptação ou para o ajustamento de um determinado sistema. Neste sentido, liberta-se da tradição antropológica do funcionalismo e de certos sociólogos, considerando que a função como uma relação não necessária e empiricamente constatável, ligando dois elementostipificáveis, de forma independente face à totalidade a que os mesmos pertencem. Neste sentido, corrige o excessivo funcionalismo pelo estruturalismo. É o criador dos conceitos de equivalente funcional ou de substituto funcional, isto é, a ideia de que, tal como um só elemento, ou uma só estrutura, pode ter várias funções, — a chamada multifuncionalidade das estruturas —, também uma só função pode ser exercida por elementos ou por estruturas diversas que, entre si, podem substituir-se. Considera também que existe, além disso, a possibilidade de uma disfunção, se as funções já não contribuírem para a adaptação ou para um ajustamento de um sistema. Cabe-lhe também a distinção entre as funções manifestas e as funções latentes, isto é, as funções inconscientes.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da asanet

Merriam, Charles E. (1876-1953)

Doutorado na Columbia University em 1900, principia a sua carreira como professor de história das doutrinas políticas. Em 1923 cria, na APSA, um Committee on Political Research que, para além de desenvolver os esquemas do psicologismo e do behaviorismo nos domínios da ciência política, vai dedicar-se à unificação das ciências sociais, para o que recebe fortes apoios da Fundação Rockefeller. A partir de New Aspect of Politics, de 1925, obra que inaugura a chamada Escola de Chicago, onde se aplicarão os modelos do psicologismo e do behaviorismo aos domínios da ciência política, a qual é entendida como simples ciência social que tem como fenómeno central o poder. As propostas de Merriam já constavam do manifesto The Present State of the Study of Politics, de 1921, onde propunha duas bases para renovação dos estudos politológicos: por um lado, a exploração das bases psicológicas e sociológicas do comportamento político; por outro, a introdução dos métodos quantitativos na análise política. Outras das suas obras fundamentais são Political Power, de 1934, e Systematic Politics, de 1945.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada da uchicago

Merleau-Ponty, Maurice (1908-1961)

Formado pela École Normale Supérieure. Professor de liceu, passa a leccional na universidade de Lyon, de 1945 a 1948, e depois ma Sorbonne, de 1949 a 1952, e no Collège de France, de 1952 a 1961. Começa por adoptar aquilo que designou por marxismo fenomenológico. Nesta fase, funda com Sartre em 1944 a revista Les Temps Modernes. Abandona o comunismo nos anos cinquenta, procurando aquilo que qualifica como a terceira via, a que, então, chama novo liberalismo, chegando a apoiar o governo socialista de Mendès-France.

Conhecer

Salienta que conhecer passa pela compreensão, pela significação e pela estrutura. Conhecer é "apreender um dado numa certa função, numa certa relação enquanto me dá o significado ou me apresenta esta ou aquela estrutura ".

Estrutura

Por seu lado, a estrutura é "um conjunto que tem um sentido e que oferece então à análise intelectual um ponto de apoio. Mas, ao mesmo tempo, não é uma ideia‑constitui‑se, altera‑se ou reorganiza‑se diante de nós como espectáculo".

Cultura e política

Seguindo o relativismo cultural proposto por Husserl, considera que "há um centro na história, que é a acção política, e uma periferia, que é a cultura". Mas tal como não há uma "política puramente filosófica", também não existe política que não traduza "uma filosofia do homem e da vida". Neste sentido, considera que se devem ultrapassar as antinomias filosóficas tradicionais: do interior/exterior; da verdade/erro; do eu/outro; da liberdade/necessidade; do sujeito/objecto; uma ambiguidade que, contudo, não considerada imperfeição. Assim, rejeita tanto o dogmatismo de um idealismo subjectivista, como as certezas dogmáticas de um realismo objectivista. A política da ambiguidade responderia assim a uma valência do mundo humano.

· La Structure du Comportement, 1942.

· Phénoménologie de la Perception, 1945.

· Humanisme et Terreur. Essai sur le Problème Communiste, Paris, Éditions Gallimard, 1947.

· Les Aventures de la Dialectique, Paris, Éditions Gallimard, 1955.

· Sens et Non-Sens, Paris, Nagel, 1966.

· Signes, Paris, Gallimard, 1960.

. Elogio da Filosofia, Trad. Port., Lisboa, Guimarães, 1993.

Retirado de Respublica, JAM

Foto picada de uri

Merle, Marcel

Politólogo francês, especialista em relações internacionais. Criador da chamada sociologia das relações internacionais.

· «Sociologie Politique et Droit Constitutionnel», In Archives de Philosophie du Droit, vol. XIV, pp. 227 segs., Paris, 1969.

· La Vie Internationale, Paris, Librairie Armand Colin, 1970.

· Sociologie des Relations Internationales, 4ª ed., Paris, Éditions Dalloz, 1988.


Retirado de Respublica, JAM

Meritocracia

Termo cunhado por Michael Yong em 1958 na obra The Rise of Meritocracy, querendo significar o governo daqueles que têm mérito. Uma sociedade onde o poder é exercido pelos melhores, por aqueles que têm mais talento ou melhor preparação e que o obtêm pela competição e pela selecção, não pela herança ou pela pertença a uma determinada classe, mas antes como consequência do princípio da igualdade de oportunidades.

Retirado de Respublica, JAM

Meritocracia (do latim mereo, merecer, obter) é a forma de governo baseado no mérito. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento, e há uma predominância de valores associados à educação e à competência.

A meritocracia está associada, por exemplo, ao estado burocrático, sendo a forma pela qual os funcionários estatais são selecionados para seus postos de acordo com sua capacidade (através de concursos, por exemplo). Ou ainda – associação mais comum – aos exames de ingresso ou avaliação nas escolas, nos quais não há discriminação entre os alunos quanto ao conteúdo das perguntas ou temas propostos. Assim meritocracia também indica posições ou colocações conseguidas por mérito pessoal.

Embora a maioria dos governos seja em parte baseada na meritocracia, ela não se expressa de forma pura em nenhum lugar. Governos como de Singapura e da Finlândia utilizam padrões meritocráticos para a escolha de autoridades, mas misturados a outros. O modelo mais próximo de uma meritocracia talvez seja a hierarquia militar, na qual os postos são em teoria obtidos por adequação aos valores de bravura, coragem e sagacidade.

O principal argumento em favor da meritocracia é que ela proporciona maior justiça do que outros sistemas hierárquicos, uma vez que as distinções não se dão por sexo ou raça, nem por riqueza ou posição social, entre outros fatores biológicos ou culturais. Ainda existem classes sociais, e os defensores da meritocracia não pretendem acabar com elas; mas há um critério mais justo para a distribuição dos estamentos sociais.

Conforme o sufixo "cracia" indica, meritocracia é, estritamente falando, um sistema de governo baseado na habilidade (mérito) em vez de riqueza ou posição social. Neste contexto, "mérito" significa basicamente inteligência mais esforço. Entretanto a palavra "meritocracia" é agora freqüentemente usada para descrever um tipo de sociedade onde riqueza, renda, e classe social são designados por competição, assumindo-se que os vencedores, de fato, merecem tais vantagens. Conseqüentemente, a palavra adquiriu uma conotação de "Darwinismo Social", e é usada para descrever sociedades agressivamente competitivas, com grandes diferenças de renda e riqueza, contrastadas com sociedades igualitárias.

Governos e organismos meritocráticos enfatizam talento, educação formal e competência, em lugar de diferenças existentes, tais como classe social, etnia, ou sexo. Na prática, pesquisas sobre mobilidade social indicam que todos esses critérios supostamente neutros favorecem os filhos daqueles que já são privilegiados de algum modo.

Em uma democracia representativa, onde o poder está, teoricamente, nas mãos dos representantes eleitos, elementos meritocráticos incluem o uso de consultorias especializadas para ajudar na formulação de políticas, e um serviço civil, meritocrático, para implementá-los. O problema perene na defesa da meritocracia é definir, exatamente, o que cada um entende por "mérito".

Origens e História

A palavra meritocracia provavelmente apareceu pela primeira vez no livro "Rise of the Meritocracy", de Michael Young (1958). No livro carregava ela um conteúdo negativo, pois a história tratava de uma sociedade futura na qual a posição social de uma pessoa era determinada pelo QI e esforço. Young utilizou a palavra mérito num sentido pejorativo, diferente do comum ou daquele usado pelos defensores da meritocracia. Para estes, mérito significa aproximadamente habilidade, inteligência e esforço. (Uma crítica comumente feita à meritocracia é a ausência de uma medida específica desses valores, e a arbitrariedade de sua escolha.)

Os primeiros indícios de semelhante mecanismo remonta à Antiguidade, na China. Confúcio e Han Fei são dois pensadores que propuseram um sistema próximo ao meritocrático. Também podem ser citados Gengis Khan e Napoleão Bonaparte, cada qual utilizou no exército e na vida política de seus estados elementos da meritocracia.

Retirado da Wikipédia

Consultar, sobre o conceito de meritocracia, o excelente artigo de BESSA, António Marques, in POLIS, Enciclopédia, vol. 4, Editorial Verbo, Lisboa, 1985.

Merêa, Manuel Paulo (1889-1977)

Transferido para a Faculdade de Direito de Lisboa no ano lectivo de 1924-1925. Autor de uma das mais veementes críticas ao positivismo no plano jurídico, quando jovem estudante de direito, logo em 1910, numa conferência intitulada Idealismo e Direito, apenas publicada em 1913, que aparece como reacção contra o discurso positivista de Manuel de Arriaga, no acto da sua tomada de posse como reitor da Universidade de Coimbra. Aí Merêa vem proclamar a necessidade de uma filosofia crítica, anti-intelectualista, pluralista e emeinentemente humana. Faz a revisão linguística e gramatical do Código Civil de 1966. Analisando a neo-escolástica peninsular fala no respectivo "carácter democrático", que resulta de "um substracto psicológico das nações ibéricas, um fundo latente mas perenemente vigoroso, cujas energias estão sempre prontas a reagir, ainda mesmo nas épocas que se caracterizam exteriormente por uma atitude apática de submissão". Salienta também que o desenvolvimento desta segunda escolástica peninsular aconteceu quando "na Inglaterra , onde um absolutismo sememlhante ao dos Filipes originava uma semelhante ausência de lutas intestinas , se desenvolveu espontaneamente a teoria do direito divino dos reis". Observa também que naquela época, "era aos reis e não aos papas que convinha defender a teoria do direito divino da realeza".

Retirado de Respublica, JAM

Mercier, Desiré (1851-1926)

Cardeal Desiré-Joseph Mercier. Neotomista, fundador do Instituto Superior de Filosofia da Universidade de Lovaina. Organizador das chamadas semanas sociais. Funda a Union Internationale d'Études Sociales e coordena a edição do Côde de Malines, de 1927. Estuda em Lovaina. Director do seminário de Malines. Arcebispo de Malines em 1906, feito cardeal em 1907. Entre 1921 e 1926 tenta a unificação de católicos e anglicanos.

·Métaphysique Générale

Lovaina, 1919.

·Psychologie

Lovaina, 1919.

Retirado de Respublica, JAM

Mercenário

Do latim mercenarius, mercenário, o que recebia merces, salário. Aquele que combate por dinheiro e não por razões políticas. Aplica-se em geral aos soldados. Antes dos nacionalismos revolucionários, quando ainda não eram dominantes as guerras nacionais, os modelos de exércitos iluministas eram acima de tudo exércitos profissionais, próximos dos conceitos de mercenarismo.

Retirado de Respublica, JAM

Mercantilismo

O mercantilismo que teve em Colbert (1619-1683) o seu epígono e no reinado francês de Luís XIV, o laboratório modelo, tem origem em Jean Bodin, o teórico do soberanismo, sendo particularmente sugerido por Antoine Montchrétien (1575-1621), o inventor da expressão economia política. Esta visão de enriquecimento do Estado foi também defendida por Juan Mariana. Na Inglaterra, a política do Navigation Act de Cromwell foi marcada por idêntica perspectiva, bem como as teses do banqueiro escocês John Law, no século XVIII. O mercantilismo que comeou por ser meramente metalista, pela criação de um grande stock de moeda na posse do Estado, depressa evoluiu para uma faceta industrialista, à maneira de Colbert, ou comercialista, à maneira britânica

Mercantilismo (Colbert)
Colbert tem, aliás, um projecto simples, transformar a França em uma fábrica e um Estado. Alguns chegam a qualificar o modelo como uma espécie de socialismo monárquico. Nele se aliam estatismo, capitalismo e individualismo, contra o anterior modelo de monarquia limitada pelas ordens e de economia comunitária. Teve particulares consequências na política internacional, quando se aplicou o modelo do individualismo possessivo às relações entre os Estados. Conforme a definição de Colbert, o comércio passa a ser entendido como uma guerra entre moedas, uma guerra perpétua e pacífica de espírito e de indústria entre todas as nações. Porque uma nação só se enriqueceria arruinando as outras nações, assegurando uma mais valia das exportações sobre as importações.

Mercantilismo em Portugal
O modelo foi logo seguido em Portugal por Duarte Ribeiro Macedo, pelo conde da Ericeira, D. Luís de Meneses (1632-1690), por D. Alexandre de Gusmão (1695-1753), e por D. Luís da Cunha.

Retirado de Respublica, JAM

Mercado

Do latim mercari, comerciar, comprar para vender, e de merx, mercadoria, donde vem mercatu, o comprado. Forma do verbo mercare, comprar para vender. Por evolução semântica, eis que da ideia daquilo que é comprado, passou-se para o lugar público onde se vendem mercadorias.


Retirado de Respublica, JAM

Mensagem

Conjunto ordenado de signos extraídos de um repertório aceite para transmitir informação, segundo a definição de C. Cherry. Abrange um conjunto de objectos comunicáveis. Segundo MacLuhan, o medium é ele próprio a mensagem.

Retirado de Respublica, JAM