quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Extrait du Projet de Paix Perpétuelle de l'Abbé de Saint Pierre , 1761

Rousseau, em 1756, foi encarregado pela família e pelos amigos do abade de resumir aquilo que qualificava como um fatras de vingt volumes. Em 1761, numas contidas, objectivas e elegantes quarenta páginas publica um Extrait du Projet de Paix Perpétuelle de l'Abbé de Saint Pierre e, em 1782, volta a referir-se à mesma num Jugement sur la Paix Perpétuelle. E o Extrait de Rousseau vai fazer circular o projecto do Abade.

Voltaire vai dedicar-lhe o seu Rescrit de l'Empereur de la Chine à l'occasion du projet de Paix Perpétuelle, onde o imperador da China aparece a chamar ao autor do projecto l'abbé Saint-Pierre d'Utopie e trata de construir um modelo alternativo cuja execução atribui a Frederico II.

Retirado de Respublica, JAM

Expulsão das ordens religiosas (1910)

Logo em 8 de Outubro de 1910, o governo provisório repõe em vigor a legislação pombalista de 3 de Setembro de 1759 e de 28 de Agosto de 1767 sobre a expulsão dos jesuítas, bem como a legislação de 28 de Maio de 1834 que extinguia as casas religiosas e todas as ordens regulares. Se este último diploma, que deu a Joaquim António de Aguiar o epíteto de mata-frades, não expulsava as ordens religiosas femininas, o novo decreto abrange-as quando torna nulo o decreto de 18 de Abril de 1901. O diploma de 8 de Outubro foi mantido pelo nº 12 do artigo 3º da Constituição de 1911.

Retirado de Respublica, JAM


"(...) Depois de tanto florescimento na Ordem, surgem vários abanões e percalços. Vão-se aprofundar com o terramoto de 1755. Com este, vários Conventos foram abalados, alguns destruídos e morreram mesmo alguns frades carbonizados. Com tudo isto, o fervor religiosos também começa a ser atacado. Tudo culmina com a expulsão e extinção das Ordens Religiosas, ordenada por Joaquim António de Aguiar, em 1834. O Terramoto deu o primeiro toque; a extinção das Ordens Religiosas fez o resto. Também os Carmelitas partiram para o Brasil e por lá ficaram quase um século sem voltarem a Portugal. (...)"


Retirado da "Ecclesia"

Explicação vs. Compreensão

Segundo Dilthey, é o processo típico das ciências da natureza, as ciências físicas e biológicas. Nas ciências do espírito só seria possível a compreensão. Porque a natureza explica-se, a cultura compreende-se. Deste modo, apresenta uma alternativa ao método positivista de Durkheim que pretendia tratar os factos sociais como simples coisas. Também Husserl considera que as ciências empíricas apenas têm de conhecer, de estabelecer uma relação causal entre os fenómenos, enquanto as ciências eidéticas já teriam de intus legere, que procurar uma visão das coisas.

Retirado de Respublica, JAM

Expectativa

Antecipação de uma determinada ocorrência. Quando se espera que certa coisa venha a acontecer num certo tempo, num determinado lugar ou de uma certa maneira. Estatisticamente, equivale a uma probabilidade que é inferida face a relativa frequência observada.

Expectativa vs. Privação

Quando surge uma discrepância entre as expectivas de valores colectivos (o dever ser) e os valores efectivamente alcançados (o ser) dá-se uma privação relativa que pode constituir um dos motivos da violência política.

Gurr, Ted Robert.

Retirado de Respublica, JAM

Exoterismo

Segundo os clásicos greco-latinos tanto há um ensinamento exotérico, socialmente útil, de compreensão fácil para qualquer leitor, como um ensinamento esotérico, aquele que apenas se revela aos que estão cuidadosamente preparados, implicando um estudo demorado e concentrado

Leo Strauss, What is Political Philosophy, pp. 221-222.

Retirado de Respublica, JAM

Exit, Voice and Loyalty , 1970

Obra de Albert Hirchman onde se considera que cada indivíduo, para maximizar o respectivo interesse pode sair de um grupo (exit), desertar, mudar de Estado, de religião, de classe ou de família. Numa segunda alternativa pode decidir tomar a palavra (voice) para participar no grupo. Finalmente pode permanecer leal (loyalty) ao grupo. Numa sociedade de mercadao generalizado como a norte-americana privilegia-se a saída pessoal da classe, através da mobilidade social, ou do território onde se vive, pela mobilidade horizontal. Isto é, o indoivíduo, em vez de se comprometer numa estratégia de protesto colectivo, através da mobilização social, tende a maximizar os seus ganhos atarvés da saída individual do grupo.

Cambridge, Massachussetts, Harvard University Press, 1970 [trad. fr. Face au Déclin des Entreprises et des Institutions, Paris, Éditions Ouvrières, 1972; trad. cast. Salida, Voz y Lealtad, México, Fondo de Cultura Economica, 1977].

Ewald, François, L’État Providence, Paris, Éditions Bernard Grasset, 1986.

Retirado de Respublica, JAM

Existencialismo

Termo inventado por Soren Kierkegaard e adoptado por teóricos como Heidegger e Sartre. Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Merleau-Ponty. A esperança dos desesperados (Mounier). A teoria do homem revoltado de Albert Camus.
Movimento de ideias do século XX. Tem como precursores Soren Kierkegaard (1813-1855) e Friedrich Nietzsche. Utiliza o método fenomenológico de Husserl, quando este admite a validade do subjectivismo no domínio moral. Em França, começa a partir de 1924, com a chegada a Paris de Nicolai Berdiaev e desenvolve-se a partir de 1933, com a introdução do pensamento de Heidegger e Karl Jaspers, a partir da obra de Gabriel Marcel. Assume o pensamento concreto contra o pensamento abstracto, o espírito subjectivo contra o espírito objectivo; a consciência individual contra o fatalismo da história. Defende um idealismo activista e voluntarista. No caso concreto do existencialismo cristão, retomam as facetas platónico-escotistas em detrimento da tradição aristotélico-tomista, sendo particularmente invocados Dins Scottus, Schopenhauer, Nietzsche e Bergson.
Retirado de Respublica, JAM

Executivo, Poder

Órgão do Estado que começou por ser aquele que executava as normas legais emitidas pelo chamado poder legislativo, cabendo-se a direcção da política e da administração. Esta visão resulta da perspectiva liberal da separação de poderes, nascendo como recção contra o absolutismo.

Retirado de Respublica, JAM

Examen de Conscience sur les devoirs de la Royauté, composé pour l'instruction du duc de Bourgogne

Fénelon critica a monarquia absoluta, considerando: nada há que mais possa causar uma queda fatal do que uma autoridade sem limites; esta é semelhante a um arco demasiado tenso que se rompe imediatamente quando se afrouxa: mas quem ousará afrouxá-lo?. Neste sentido, aproximando-se dos ensinamento de São Tomás propõe uma monarquia aristocrática e descentralizada, respeitadora da tradição, com estados provinciais e estados gerais. Aproxima-se das teses de Saint-Simon, pai, e de Boulainvilliers. Opõe o despotismo teórico à fraternidade humana.

Retirado de Respublica, JAM

Evolucionismo e Estado.

A procura do elemento societário

Outro dos tradicionais elementos do Estado é, como vimos, a população. Não o elemento material, natural e bruto, mas a maneira de ser de um determinado conjunto de pessoas, as relações que fazem, dessa soma de elementos, um grupo autónomo, tendo sobretudo em vista os fins que o marcam, que o transformam, por razões espirituais, num conjunto coerente, diferenciado face a outros conjuntos e capaz de prestar consentimento a um determinado poder, fabricando legitimidade.

Da societas à civitas

Lewis Henry Morgan, autor de Ancient Society, de 1877,

O modelo evolucionista progressista

Todo o evolucionismo e todo o progressismo consideram, aliás, que as estruturas se realizam passando do simples ao composto e deste para o conjunto, onde já há coordenação num todo dos respectivos elementos integrantes. Neste processo de evolucionismo coordenador, a primeira estrutura seria o clã que se foi multiplicando e cindindo em vários grupos que, entretanto, começaram a hostilizar‑se. Numa segunda fase, perante esta fragmentação, e havendo necessidade de estabelecimento de uma hierarquia no interior do sistema social, tal conseguiu‑se pelo recurso tanto às castas como às raças vencedoras. E é destas entidades superiores, destas elites que vai emergir o Estado, entendido como a estrutura social integrante de forças antagonistas num conjunto ordenado, como, por exemplo, salienta Lester Frank Ward.

O modelo evolucionista organicista

Esta teoria da transformação dos organismos está também subjacente às teorias evolucionistas organicistas que consideram que o Estado surgiu do desenvolvimento da família. Trata‑se de uma posição que se é nítida em Fustel de Coulanges e Henry Sumner Maine, também não deixa de aparecer em Rousseau para quem a família é o primeiro modelo das sociedades políticas: o chefe é a imagem do pai, o povo é a imagem dos filhos. A mesma posição é adoptada por certos autores católicos, como Pietro Pavan para quem várias famílias formaram a tribo ou aldeia que, por sua vez, se associaram e formaram a cidade, dando várias cidades origem a uma entidade mais vasta:o Estado. Para o efeito invoca‑se o livro do Génesis (5, 31), onde se refere que as famílias se juntaram umas às outras e formaram um grupo orientado pelo respectivo chefe. Trata‑se de uma visão que também se encontra em Aristóteles ‑ para quem a polis seria uma associação de várias aldeias ‑ e que foi retomada por Cícero que salientava ser o conjugio a primeira das societates, a que se segue o domus que é principium urbis et quasi seminarium reipublicae. Mais recentemente Lecomte Du Nouy fala a este propósito na lei do aumento do tamanho que prevalece em Paleontologia, aproveitando para referir o possível desaparecimento do Estado num futuro longínquo.Para ele da família isolada, exposta a todos os perigos, ao clã, depois à aldeia; da aldeia à província, depois ao país e dum país aos Estados que entre si se confinam, a progressão é inelutável. E a protecção que a família derivava da associação ao clã, à aldeia modificou‑se quando, nos Estados totalitários, nos Estados polvos, a personalidade do indivíduo é inteiramente sacrificada à Pessoa política e económica que não é senão uma célula anónima. Iria por esse facto assistir‑se ao crepúsculo das nações, à morte das entidades impessoais, das colmeias governadas por leis desumanas. O esforço da civilização concentrar‑se‑á sobre o aperfeiçoamento da personalidade e da dignidade individual e a Evolução poderá, não é proibido pelo menos esperá‑lo, continuar a sua marcha no sentido do Espírito (La Dignité Humaine, Paris, 1949).

O paradigma da história romana

Na mesma linha se situa a clássica visão da história de Roma, com a passagem da família às gentes e depois à curia, à tribo e à civitas. Um evolucionismo que constitui um tópico do pensamento político clássico.Aristóteles coloca os seguintes degraus nessas corporações: domus, vicus, civitas, provincia, regnum, imperium.S. Tomás de Aquino e Baldo referem a sucessão vicus, civitas e provintia ou regnum.Dante fala em plura ordinata ad unum e considera a seguinte evolução: homo singularis, communitas domestica, vicus, civitas, regnum.Antonius de Rosellis, sistematizando a matéria, refere cinco corpora mystica universitatum, equivalentes às próprias divisões eclesiásticas: a communitas unius vici, castri ou oppidi, com um pároco, na parte religiosa, e um magister, na parte profana; a civitas, com um bispo e um defensor da cidade; a província, com o arcebispo e o praeses provinciae; o regnum com um primaz e um reino e o universus com um papa e um imperador.

O organicismo

Esta visão evolucionista orgânica é também assumida tanto pelos paternalismos monárquicos como por certos corporativismos, para quem a família era constitucionalmente considerada como célula fundamental da sociedade e um dos elementos estruturais da nação. Neste sentido também é paradigmática a teoria patriarcal de Robert Filmer, em Patriarcha, or the Natural Rights of Kings, de 1684, que suscitou a reacção individualista de Locke em An Essay concerning certain false principles. Este conjunto de teorias teve sempre a tendência de considerar o Estado como um organismo superior, como algo de semelhante a uma associação masculina criada pelo instinto de sociabilidade, diferente do impulso sexual. Bonald referia, por exemplo, que a sociedade foi primeiro família e depois Estado. E mesmo Rousseau, como vimos, não deixava de considerar que a mais antiga de todas as sociedades e a única natural é a da família.

O chefe como substituto do pai

Julius Evola, a este respeito, salienta que o Estado é uma aplicação ampliada do mesmo princípio que constitui a família patrícia, onde o paterfamilias é rei sacerdotal; onde há uma paternidade material e uma autoridade espiritual. É que a família antiga é mais uma associação religiosa que uma associação da natureza (Revolta contra o Mundo Moderno, trad. port., pp.71-72). E não tarda que Freud considere que o príncipe é uma espécie de substituto do pai que converte os homens em crianças sem vontade própria. Outros, mais simplesmente, referem a existência de uma comunidade tribal de descendência que, depois, passa a uma comunidade quando tem de afirmar‑se perante outra colectividade, assumindo uma posição guerreira, ofensiva ou defensiva. Salientam, contudo, que o enraizamento associativo pode provir de outras causas de união, seja a existência de uma comunidade linguística ou cultural, seja a de uma simples comunidade de destino, desde a mera way of life a uma religião comum. Isto é, cada associação populacional, sejam um povo único, muitos povos unidos, ou uma nação, tem várias e contraditórias causas, tanto a nível da sua história da formação da respectiva unidade, como no tocante ao próprio futuro da mesma. Não há, com efeito, regra única para a obtenção desse efeito unitário, nem é possível determinar qual o elemento preponderante no processo de unificação de tal constelação genética. Cada povo, cada nação, cada Estado tem a sua própria causa e tem que continuar a conquistar o seu próprio futuro, dado que o facto de o serem, ou de o terem sido, não é garantia para que o continuem a ser ou, caso já existam, que o venham a ser, caso apenas tenham desejo de o ser. Importa assinalar que, ainda hoje, alguns séculos volvidos sobre a instituição do Estado Moderno, o elemento societário, nomeadamente o Estado‑Nação e a Nação-Estado, tem de submeter‑se ao esquema geométrico territorialista do Estado. Apenas alguns povos lograram assumir‑se como nações em diáspora, desde os judeus, entretanto atraídos atraídos pela dificil territorialidade do Estado de Israel, às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, que, da vagabundagem emigrante, estão sempre marcadas pela gravitação da saudade ou pelo desejo de regresso à santa terrinha. ,72,487.

Retirado de Respublica, JAM

Evolução espontânea

Para Hayek há um espontaneísmo evolucionista que é contrariado pelos sistemas e as filosofias da história que estabelecem uma verdade imutável e eterna. Considera que o socialismo e o planeamento revelam o ressurgimento de velhos instinto herdados da era tribal.

Retirado de Respublica, JAM

Evolução pela unificação

Para Etzioni as estruturas sociais não evoluem apenas através da cisão e da incessante especialização. Muitas vezes evoluem pela unificação, acrescentando novas estruturas destinadas a cumprir funções novas que não existiam em germe no contexto histórico precedente.

Retirado de Respublica, JAM

Evolucionismo

Corrente de pensamento surgida a partir das teses de Darwin, destacando-se as posições de Herbert Spencer.


O evolucionismo organicista no pensamento político clássico. Aristóteles (família, aldeia, polis). S. Tomás de Aquino (vicus, civitas, regnum). Althusius (família, parentesco, colégios ou corporações, universitates, cidade). A restauração do modelo pelo patriarcalismo (Robert Filmer) e pelo corporativismo organicista dos séculos XIX e XX. As teorias antropológicas evolucionistas sobre as orgens do político. Lewis H. Morgan (a passagem da societas à civitas). ªW. Southall (Sociedades sem Estado, Sociedades Segmentares, Estados Segmentares e Estados Unitários). M.H. Fried (Governo Mínimo, Governo Difuso, Governo Estatal). Pierre Clastres e as teses que defendem a existência de uma sociedade antes do Estado e de sociedades contra o Estado. O evolucionismo marxista. Chefatura, Estado tributário, Cidade (a propriedade do solo determinando a cidadania), Esclavagismo, Senhoria (modelo dos reinos bárbaros), Principado, Cidade burguesa, Estado Aristocrático (despotismo esclarecido), Estado Aristocrático Burguês (capitalismo manufactureiro), República Burguesa, República Burguesa Intervencionista (Welfare State). O modelo do sistemismo. A procura de uma definição universal do político, válidos para todos os lugares e para todos os tempos. David Easton (o sistema como conjunto de elementos interdependentes que formam uma totalidade coerente e o político como processo de alocação autoritária de valores). O evolucionismo neoliberal. A tese de Robert Nozick: associações de protecção mútua (implicam a mobilização permanente dos respectivos membros); agências de protecção em concorrência (há pessoas pagas para o exercício de funções de protecção, oferecendo-se, em regime de concorrência, diferentes políticas de protecção); agência protectora dominante (uma agência de protecção, vencendo a concorrência exerce um monopólio de facto); Estado ultramínimo (monopólio do uso da força, excluindo as represálias privadas); Estado mínimo (o Estado como uma grande companhia de seguros, uma espécie de Estado Guarda Nocturno da teoria clássica, mas já com funções redistributivas, quando obriga algumas pessoas a pagar o serviço de protecção).

Evolucionismo de Fernando Pessoa

Utilizando a linguagem de Herbert Spencer, Fernando Pessoa, em 1926, num artigo publicado na Revista de Contabilidade e Comércio, sob o título «Organizar» fala numa escala evolutiva onde os organismos vão subindo mais alto quanto mais complexos os seus órgãos e mais diferenciados.

Retirado de Respublica, JAM

Evola, Giulio

Cesare Andrea (1898-1974) Assume-se como neo-gibelino, considerando-se membro do partido tradicional, mais homem de direita do que fascista. Oficial de artilharia na Grande Guerra de 1914-1918. Adere ao dadaísmo e ao modernismo de Marinetti nos anos vinte. Divulgador de temas esotéricos. Defende o mundo da tradição contra o mundo moderno na linha do esoterismo de René Guénon. Ligado a Mussolini, tem a oposição de Gentile. No título de uma das suas obras, propõe que se cavalgue o tigre, de acordo com um ditado oriental, para o impedir de morder e para, eventualmente, poder dirigir-se a sua capacidade de correr. Defende o elitismo contra o bonapartismo, contra aqueles que recebem o poder de outros e não afirmam um princípio superior.

Retirado de Respublica, JAM

Giulio Cesare, “Julius” Evola nasce a Roma il 19 maggio del 1898 da una famiglia siciliana di nobili ascendenze. Nel 1917 partecipa alla prima guerra mondiale come ufficiale di artiglieria e fino al 1921 scrive poesie e dipinge. Successivamente incomincia il periodo filosofico: nel 1924 conclude “Teoria e Fenomenologia dell'individuo assoluto” e pubblica in successione “Saggi sull’idealismo magico”(1925), “L’individuo e il divenire del mondo pagano” (1926); “Imperialismo pagano: il fascismo dinnanzi al pericolo eurocristiano (1928), una violenta critica al cristianesimo che invita i fascisti a rompere con i cattolici.
Non era il momento giusto, il regime stava lavorando ai Patti Lateranensi ed Evola viene quindi emarginato dalla vita culturale italiana mentre ottiene un discreto successo in Germania.

Nel 1930, Evola fonda il bimestrale “La Torre” e, nel 1934, pubblica la sua opera principale: “Rivolta contro il mondo moderno”. Tra il 1937 e il 1941 si dedica agli studi relativi alla razza, e scrive “Il mito del sangue” nel 1937 e “Sintesi di dottrina della razza” nel 1941. Opere teoriche di un “razzismo spirituale” diverso da quello biologico nazista. Dal 1941 si indirizza verso un fascismo sempre più “radicale e l’'8 settembre sorprende Evola in Germania. Al suo ritorno in Italia aderisce alla RSI, continuando però a frequentare Germania e Austria. Nell'aprile del 1945, resta ferito durante un bombardamento sovietico su Vienna. Perde per sempre l’uso delle gambe. Nel 1948, viene trasferito a Bologna e nel 1951 rientra a Roma. Nel 1953 pubblica “Gli uomini e le rovine”, nel tentativo di promuovere la formazione di uno schieramento di quella che lui definisce la “vera Destra”. Dalla metà degli anni cinquanta Evola diventa la figura intellettuale di riferimento degli estremisti di destra italiani e soprattutto dei neofascisti di Ordine Nuovo. La sua antimodernità rappresenta, infatti, al meglio gli ideali degli "esuli in patria", di quei fascisti che, sconfitti non solo militarmente, proteggono la propria identità rifiutando le “contaminazioni” delle modernità.
Nel 1961 pubblica “Cavalcare la tigre”, in cui elogia i kamikaze giapponesi e nel 1963 scrive il suo ultimo testo: “Il Fascismo visto dalla Destra”.
Nel 1968, Evola viene colpito da uno scompenso cardiaco acuto e lo stato di salute peggiora notevolmente. Muore l’11 giugno 1974 a Roma e le sue ceneri vengono disperse in un crepaccio del Monte Rosa."

Retirado de Cedostnews

Evidência, Regra da (Descartes)

"jamais receber por verdadeira coisa alguma que eu não conhecesse evidentemente como tal".

Retirado de Respublica, JAM

Europeísmo da resistência

e o nazi-fascismo invocou o europeísmo, eis que os movimentos de resistência não deixaram também de manifestar uma forte corrente de unidade europeia de cariz federalista, principalmente na França, na Bélgica e na Holanda.

Os precursores do movimento foram os antifascistas italianos Altiero Spinelli (1907-1986) e Ernesto Rossi, que, presos em Ventotene, nas ilhas Lipari, haviam fundado clandestinamente, em Junho de 1941, um movimento europeísta, autor do chamado Manifesto de Ventotene que reclamava uma constituição europeia elaborada por uma assembleia europeia a ser ratificada pelos parlamentos nacionais.

Este grupo, já depois da queda de Mussolini, vai criar em Milão, em Agosto de 1943, o Movimento Federalista Europeo, cujo programa propõe a criação de uma Federação europeia para a qual sejam transferidos poderes soberanos que digam respeito aos interesses comuns de todos os Europeus, salientando também que os habitantes dos diferentes Estados devem possuir a cidadania europeia, devem, portanto, ter o direito de escolher e de controlar os governantes federais e de controlar os governos federais e de ser submetidos directamente às leis federais.

A resistência francesa advogava também o europeísmo, chegando mesmo a reclamar uns Estados Unidos da Europa, ideia que era partilhada por vários jornais, dos quaisa se destaca Combat, fundado em 1941, onde vão colaborar vários europeístas, como Henri Frenay, Georges Bidault, Albert Camus, Pierre-Henri Teitgen, Edmond Michelet e François de Menthon. É este jornal que vem proclamar que os Estados Unidos da Europa serão em breve uma realidade viva, pela qual combatemos (Setembro de 1942), considerando a resistência, como a esperança da Europa, o cimento das uniões de amanhã (editorial de Dezembro de 1943).

Depois de várias reuniões de resistentes ocorridas desde Março de 1944, eis que em Julho desse mesmo ano surgia, a partir de Genebra, a Declaração das Resistências Europeias, sob o título A Europa de Amanhã, subscrita por delegados vindos da França, da Itália, da Alemanha, da Holanda, da Dinamarca, da Noruega, da Polónia e da Checoslováquia, onde se adoptavam os princípios da Carta do Atlântico.

Aí se observava que os fins morais, sociais, económicos e políticos que os uniam na resistência ao nazismo não podem ser atingidos salvo se os diversos países do mundo aceitarem ultrapassar o dogma da soberania absoluta dos Estados integrando-se numa única organização federal. A paz europeia é a pedra angular da paz do mundo. Com efeito, no espaço de uma só geração, a Europa foi o epicentro de dois conflitos mundiais que tiveram, antes de mais, por origem a existência sobre este Continente de trinta Estados soberanos. É necessário remediar esta anarquia pela criação de uma União Federal entre os povos europeus.

Os signatários acrescentavam que a vida dos povos que representam deve ser fundada no respeito pela pessoa, a segurança, a justiça social, a utilização integral dos recursos económicos em benefício da colectividade globalmente considerada e no desabrochar autónomo da vida nacional. Estes fins não podem ser atingidos a não cerque os diversos países do mundo aceitem ultrapassar o dogma da soberania absoluta dos Estados, integrando-se numa única organização federal.

Dentro da própria Alemanha, a resistência ao nazismo também se alimentava do europeísmo. Carl Friedrich Gördeler, numa memória secreta, de Março de 1943, considerava: Unificação da Europa com base em Estados europeus independentes; esta unificação efectuar-se-á por etapas! Uma união económica europeia, com um conselho económico com sede permanente, será imediatamente criada. A unificação política não precederá, mas seguir-se-á à união económica. Também na universidade de Munique, sob o impulso do Professor Huber, surgia o movimento Rosa Branca, que propunha a estruturação federal da Alemanha e da Europa. Em Fevereiro de 1943 este movimento chegou a promover uma manifestação de estudantes. Serão executados os líderes desse movimento, os irmãos Hans e Sophie Scholl.

Retirado de Respublica, JAM

Europeísmo

Europeísmo totalitário

A ideia da Europa nos anos trinta penetrou de tal maneira no limiar da política que os próprios totalitarismos de então não deixaram de a instrumentalizar. É conhecido o projecto de Lenine de uns Estados Unidos Operários da Europa, numa estratégia que pretendia encontrar para a revolução bolchevique imediatos aliados ocidentais, nomeadamente pelo projecto de apoio à revolta comunista na Alemanha e a consequente extensão do incêndio da revolução mundial a Paris coisa que apenas foi impedida pela vitória dos polacos na batalha do Vístula.

Da mesma forma, Adolfo Hitler quase conseguiu, pela repressão, pela propaganda e pela conquista, constituir uma unificação europeia. Para as teses nazis, o Grossesdeutsches Reich deveria constituir um grande espaço com um Estado director, reunindo todos os povos de língua alemã.

Em primeiro lugar, deveria adquirir espaço vital, estendendo as fronteiras para Leste, onde deveriam situar-se os limites de um novo império, onde soldados-colonos deteriam os bárbaros vindos das estepes. Em segundo lugar, viriam os aliados, como os escandinavos, os holandeses e os ingleses. Em terceiro lugar, os satélites, como os latinos, os húngaros e os gregos. Finalmente, os eslavos pertenceriam à categoria de escravos e os judeus teriam de ser exterminados.

Como dizia Goering, em 1943, nessa altura o continente estaria maduro para a união política, união que conservaria as autonomias regionais e adoptaria um plano comum de cooperação colonial em África. Chegava mesmo a acrescentar: mesmo se nós perdermos a guerra, na minha opinião, é este o futuro da Europa e nada impedirá que ele se cumpra.

Na prática, a expansão hitleriana quase correspondeu a essa teoria, chegando a construir-se um Império continental bem mais extenso que o de Napoleão.

Primeiro, começou por estender-se às zonas alemãs. Em 12 de março de 1938 é a Anschluss da Áustria. Na Conferência de Munique de 29 e 30 de Setembro seguintes, garante a integração dos Sudetas. E em Março de 1939, já é eliminada a Checoslováquia.

Segundo, estabeleceu um contrato de seguro com o estalinismo gestor da Rússia, o pacto germano-soviético de 24 de Agosto de 1939.

Finalmente, a guerra, que começa com a invasão da Polónia, no dia 1 de Setembro de 1939. A ocidente, vão caindo a Holanda, a Bélgica e a França; a norte, a Dinamarca e a Noruega; a sul, a Jugoslávia e a Grécia; em direcção ao centro, a Checoslováquia e a Áustria; a Leste, os países bálticos e a Polónia.

Tem como aliados a Hungria, a Roménia e a Bulgária. A Itália é um parceiro. A Espanha e a Finlândia são amigos. Portugal depende do que acontecer com Espanha. A Suécia e a Suíça assumem a neutralidade. A própria Rússia parecia subjugada e Hitler chega a ir mais longe do que Napoleão quando se lança no Cáucaso.

O modelo organizatório do Estado director divide a Checoslováquia entre um Estado eslovaco e um Protectorado da Boémia-Morávia. Na Jugoslávia, é criado um Estado croata, incluindo a Bósnia, que vai ser gerido por Ante Pavelitch.

O elemento mobilizador desse grande espaço político passou a ser a luta contra o comunismo: é preciso fazer a Europa contra o bolchevismo, foi o signo mobilizador que fez chamar à campanha da Rússia inúmeros voluntários de vários países europeus que se aliaram à ofensiva nazi. Passou então a falar-se numa Europa Nova e numa ordem nova. Goebbels, o principal expoente de toda esta propaganda, declarava então : não será a primeira vez na história que a Europa comungará das mesmas concepções políticas, morais, sociais e económicas. Um povo de senhores (Herrenvolk) está prestes a construir uma Europa de vassalos (Untermenschen).

Em Maio de 1943, Hitler confessava a Goebbels: qualquer desordem dos pequenos Estados que ainda existem na Europa deve ser liquidada tão depressa quanto possível. O objectivo da nossa luta deve ser criar uma Europa unificada. Os alemães, sozinhos, podem realmente organizar a Europa.

Aliás, foi reagindo contra esta mobilização que o grande escritor alemão Thomas Mann, numa comunicação aos europeus, feita na Rádio Nova Iorque, em Janeiro de 1943, considerou: o grande ideal da Europa foi pervertido e corrompido de maneira horrível; caiu nas mãos do nazismo que, há dez anos, conquistou a Alemanha e conseguiu, por causa da vossa desunião, subjugar todo o continente. Esta conquista do continente é apresentada pelos nazis como a unificação da Europa, como a "ordem nova", conforme as leis da história. De todas as mentiras de Hitler, a mais insolente é a mentira europeia, a perversão da ideia europeia... Ficai sabendo, ouvintes europeus ... a verdadeira Europa será criada por vocês mesmos, com a ajuda das potências livres.

O europeísmo constituía, aliás, um dos elementos estruturantes do romantismo fascista francês. Pierre Drieu La Rochelle advogava já em 1921, em Mesure de la France que a era das alianças está aberta sem que o papel das pátrias tenha terminado, preocupando-o a circunstância dos russos serem 150 milhões e dos americanos rondarem os 120 milhões. Assim, considerava que a Europa se federará ou então se devorará ou será devorada. E as gerações da guerra, que não parecem por aí caminharem, farão isso ou então será tarde demais.

Cerca de um lustro depois, em Genève ou Mouscou, de 1927, já propunha um patriotismo europeu contra o nacionalismo, proclamando a necessidade de se ultrapassar o esgotamento espiritual das pátrias, necessidade de se criar uma vasta autarquia económica à medida de um continente.

Em 1931 escreve Europe contre les Patries, temendo uma Europa central e oriental atormentada pelo inacabamento das suas formas temendo a guerra. Em 1934 chega mesmo a dizer: a minha fé na Sociedade das Nações, afirmava-se maior do que nunca. Hoje, en dépit des traverses, permanece. Espero as metamorfoses da ideia. Em 1940 que agora é preciso entrar no federalismo e pôr fim ao nacionalismo integral e ao autonomismo patriótico.

Alphonse de Chateaubriant numa carta de 28 de Novembro de 1918 dizia: o futuro da Europa é muito sombrio, mas, custe o que custar, caminhamos para uma "Europa una", cada vez mais "una".

Robert Brasillach, falando na Europa como o velho cabo da Europa, donde partiu, há três mil anos a civilização branca, defendia o colaboracionismo em nome da necessária aliança franco-alemã: sem a França indestrutível e a Alemanha indestrutível, nenhuma paz poderá jamais estabelecer-se na Europa. Se tentarem aniquilar uma ou outra, os germes da guerra renascerão sempre. Não apenas a Alemanha é as única potência no mundo que pode hoje barrar o caminho à revolução marxista, quer isto nos agrade ou não, mas, para além deste facto, a Alemanha está no centro da Europa e aí ficará sempre: sem a sua força nada é, portanto, possível.

Com efeito, entre os fascistas autênticos surgiu um europeísmo, entendido como um grande nacionalismo, numa Europa entendida como uma grande pátria. Como expressivamente referia Drieu, sempre fui um nacionalista que a ele renunciou em nome da Europa, um filósofo da força que acreditou cada vez mais na utilidade da força entre os europeus.

Esta perspectiva manteve-se no próprio neofascismo, destacando-se Jean Thiriart a teorizar uma Nação‑Europa que deveria ter direito a um Estado‑Europa. Este autor, reagindo contra a pátria‑hábito (v.g. a Bélgica), a pátria‑recordação (v.g. a Alemanha) e a pátria‑herança (v.g.a França), vem defender que a única verdadeira pátria é aquela que pensa no devir, isto é, uma pátria de expansão, chegando a definir-se como um nacional‑bolchevique pan‑europeu, ao serviço de um comunismo liberto de Marx, e propondo a necessária passagem dos Estados‑territoriais para os Estados‑continentais.

Criticando a ideia gaullista de Europa das Pátrias, considerada como uma junção momentânea e precária de rancores e fraquezas, proclamava um nacionalismo europeu que pudesse enfrentar os nacionalismos russo e americano, considerando que a Europa deve ser unitária: uma Europa confederada ou Europa das pátrias são concepções onde a imprecisão e a complicação escondem a custo a falta de sinceridade ou a senilidade dos que as defendem e dissimulam os seus propósitos e os seus cálculos.

Para o mesmo Thiriart, a Europa confederada é a forma das alianças clássicas e dos preconceitos tão clássicos como desonestos ... é a Europa aberta às influências estrangeiras.

Mas se considera que a fórmula federal constitui um grande progresso, ainda contém em germe a possibilidade de cisões ou, pelo menos, de crises internas. Teria de ser mero estádio preparatório da Europa unitária. É que a fórmula confederal é o cálculo e preconceito; a fórmula federal é a confusão; a forma unitária é o método, a ordem, a clareza, a diferença que faz a concubinagem, o noivado e o casamento.

Retirado de Respublica, JAM

A Europa em Formação , 1977

Obra de Adriano Moreira (Lisboa, Sociedade de Geografia, 1977) (dissertação de doutoramento em Direito apresentada na Universidade Complutense de Madrid). A obra está assim dividida:

·Introdução (a plataforma ocidental, a formação do Euromundo, o processo de recuo, a descentralização e a separação);

·cap. I - Os critérios da unidade (as afinidades laicas; os critérios da reorganização);

·cap. II - O espaço europeu (história do presente, os modelos, o europeísmo);

·cap. III - A organização do espaço (os apelos, a Europa militar, a Europa política, a Europa económica);

·cap. IV - A Europa em formação (a política das fronteiras, a conjuntura internacional portuguesa).

Retirado de Respublica, JAM

A Europa e os seus Fantasmas , 1945

Obra de João Ameal que reflecte as indecisões ideológicas de um dos pensadores do salazarismo que, partindo de bases neotomistas, citando personalistas e maritainistas, não dá o salto para a defesa da democracia. Criticando a heresia liberal ainda procura no corporativismo uma idade nova.

Retirado de Respublica, JAM

Europa. A mitologia e os símbolos

Os rigores científicos da geografia não andam longe dos relatos mitológicos de onde nos vieram tanto o nome Europa como a obsidiante nostalgia pelo ventre materno asiático e da própria poesia recriadora dos mitos, confirmando-se assim que a poesia, como dizia Aristóteles, pode ser mais verdadeira que a história. Segundo os relatos da Ilíada e da Odisseia, o chefe dos deuses, Zeus, é qualificado como o euruopé, como aquele que tem olhar amplo ou que olha para longe ( eurus quer dizer amplo ou vasto e ops quer dizer olhar). A Europa aparece pois, etimologicamente, como a região do largo horizonte. Para uns, a Europa seria uma das três mil filhas de Oceano e de Tethis, as ninfas do mar ou oceânides, conforme a referência de Hesíodo, no verso 357 da Teogonia. Para outros, uma princesa fenícia, filha de Agenor, rei de Tiro, que foi amada por Zeus, rei dos Deuses; este, disfarçado de touro, raptou a princesa, levando-a, das praias de Tiro, para a ilha de Creta, onde retomou a forma primitiva; depois, transformou o touro em constelação que colocou entre os signos do zodíaco. O português António Sardinha, retomando o episódio, escreveu o poema Roubo da Europa, onde coloca a princesa fenícia nos penhascos do Ocidente, dando à luz um moço a quem chamaste Portugal. Noutro poema, sobre a mesma temática, intitulado Cabo da Roca, diz-nos: Aqui acaba toda a terra antiga,/começa aqui a tentação do mar./ Europa - ainda era rapariga -,/ Sentou-se aqui um dia a descansar./ Vinha de longe, andando com fadiga,/ vinha de longe, andando sem parar.../ Em frente ao mar, que o rosto lhe fustiga,/ logo pensou Europa em se casar./ / Pediu-a p'ra mulher o Padre-Oceano./ Entre sereias, conchas e golfinhos,/ as ondas lhe bordaram o enxoval.// E quando o noivo a recebeu, ufano,/ nestes penhascos rústicos, sòzinhos,/ deram os dois o ser a Portugal.A este respeito, importa observar que todas estas lendas gregas eram geradas quando apenas se conheciam seguramente as bordas do Medirrâneo, mar onde se casavam os três continentes conhecidos, todos com o nome de mulher: a Ásia, considerada a esposa de Prometeu, a Líbia, nome que então se dava à África, e a Europa. Também a patrística cristã de São Jerónimo (346-420) e de Santo Ambrósio (n. 340), continuada por Paulo Orósio e Santo Isidoro de Sevilha, invocam o mito bíblico de Japhet, filho de Noé, a quem teria cabido, em partilha, a Europa, enquanto para Sem e Chgam, teriam ficado a Ásia e a África.

O mar

Eis, portanto, a Europa como aquele sítio onde a terra acaba e o mar começa, conforme dizia Camões, sobre Portugal. Onde acaba toda a terra antiga e começa ... a tentação do mar, utilizando agora António Sardinha. Eis uma Europa que nasceu e cresceu à volta do mar, como observa Bernard Voyenne. Segundo as palavras deste último autor, esta península das tormentas, ramificada até ao infinito, é na verdade o lugar mais banhado que há no mundo: um quilómetro de costa para dois mil quatrocentos e vinte e nove quilómetros quadrados de terras. Por todo o lado, a água se insinua, vai subindo em largos estuários e fiordes, bordeja ilhas e ilhéus litorais. Nenhuma distância face ao mar excede mil quilómetros e na maior parte dos casos essa distância é bem menos (mesmo a Suíça, um país que passa por continental, está a menos de seiscentos quilómetros do oceano e a trezemtos do Adriático). A Europa nasceu e cresceu à volta do mar; expandiu-se a bordo de um oceano...

Os símbolos europeus

Foi misturando o azul do mar, o futurismo romântico, resquícios da mitologia e algum cabalismo, que, neste nosso tempo de ciência e racionalidade, mas depois do apocalipse e à beira de um novo e mais doloroso apocalipse, se estabeleceram os panteístas e profetistas símbolos da Europa, desde a bandeira da Europa, em 1955, com um diadema de doze estrelas sobre um fundo azul, ao próprio hino, em 1972, retirado da Ode à Alegria de Ludwig van Beethoven. Hoje a Europa tem uma bandeira azul, com uma coroa de doze estrelas, não uma estrela por Estado, mas o emblemático número doze, considerado símbolo da plenitude e da perfeição, como doze eram os filhos de Jacob, os trabalhos de Hércules, os signos do zodíaco, os meses do ano, os apóstolos ou a romana lei das doze tábuas. Doze estrelas, como as da auréola de uma Virgem que aparece no vitral da catedral de Estrasburgo, uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés, tendo uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça (et in capite eius corona stellarum duodecim)... Tudo muito conforme, aliás, com o capítulo XII do Apocalipse de S. João. Compare-se o que a respeito escreve o nosso Padre António Vieira, onde se fala numa Mulher em dores de parto, dando à luz um Filho varão que, no entanto, há-de reinar sobre todas as nações do mundo com ceptro de ferro. Se um Dragão tenta tragá-lo, eis que ele acaba por ser arrebatado ao céu, onde acabará por assentar-se no trono de Deus. À Mulher se darão duas grandes asas de águia com que fugirá do Dragão. Virá depois um Cavaleiro, montado num cavalo branco, trazendo, na orla do vestido, a divisa rex regum et dominus dominantium, comandando um exército, também montado em cavalos brancos, que acabará por vencer o Mal, isto é, a bestialidade do Dragão e os os falsos profetas que o seguem. Interpretando tal passagem, António Vieira considera que se trata de um relato da emergência da Igreja do Quinto Império, onde se descreve a maniera da Igreja se coroar, e alcançar o Reino e império universal, onde a Lua é o Império Turco (ou o império dos que apenas têm poder temporal) e o ferro, a inteireza e constância da justiça e igualdade com que o mundo há-de ser governado. Tratar-se-ia da procura de um poder que não está sujeito às inconstâncias do tempo, nem às mudanças da fortuna e que se há-de estender até ao fim do mundo. Porque só então chegará o corpo místico de que fala São Paulo, com Cristo a nascer de novo. O tal Filho, que tem o trono no Céu, tal como a Igreja tem uma coroa na terra.

Europa-hegemonia do mais forte e consentimento dos outros,70,464

Europa-integração política,70,465

Europa-transferência de lealdades,70,465.

Retirado de Respublica, JAM